Conhecer o Bem e Saber do Mal
Do deserto ao jardim — do julgamento à vida no Espírito
No artigo anterior, refletimos sobre a passagem “De João Batista a Cristo”, mostrando o caminho que vai do batismo de arrependimento ao batismo do Espírito — do deserto árido ao jardim fértil. Essa transição é mais do que histórica; ela representa uma mudança de perspectiva. João Batista apontava para o pecado (“Raça de víboras… arrependam-se”), enquanto Jesus trazia a Boa Nova do Reino (“O Espírito do Senhor está sobre mim…”).
Hoje, vivemos algo semelhante. A polarização que domina nossa cultura — seja política, religiosa ou social — nos ensina, sem percebermos, a conhecer o mal do outro. Ficamos atentos aos erros, às falhas, às ideologias e aos pecados alheios. Mas esquecemos de aplicar o coração para conhecer o bem, para discernir o que edifica.
Salomão, o homem que mais teve sabedoria, descreve isso com precisão: “Apliquei meu coração a conhecer o bem e saber do mal” (cf. Eclesiastes). Esse não é um movimento neutro. É um esforço consciente para ir além da crítica e do julgamento e, ao mesmo tempo, não ser ingênuo sobre a realidade do mal.
Examinem tudo e fiquem com o que é bom
Paulo escreve em 1 Tessalonicenses 5:21: “Examinem tudo. Retenham o que é bom.” Isso mostra que a vida cristã não é de ingenuidade nem de confronto direto. Não é simplesmente “aceitar tudo” ou “rejeitar tudo”, mas avaliar. Em debates ou redes sociais, por exemplo, em vez de reagirmos com ódio ou medo, podemos filtrar o que é dito, reter o que é verdadeiro e descartar o que é manipulação ou mentira.
Somente Deus é bom
Jesus diz em Marcos 10:18: “Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.” Esse é um lembrete poderoso para não idolatrarmos pessoas ou sistemas. Todo ser humano, por mais virtuoso, tem limites. Quando um líder decepciona, não devemos perder a fé — a bondade verdadeira vem de Deus, não das instituições.
Buscar ao Senhor enquanto se pode achar
Isaías 55:6: “Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto.” Essa é uma convocação para colocar nosso foco no relacionamento com Deus, não na guerra contra o mundo. Dedicar tempo diário à oração, meditação ou leitura bíblica antes de entrar no turbilhão de notícias e debates fortalece nossa visão espiritual.
Sujeitar-se a Deus, resistir ao diabo
Tiago 4:7: “Portanto, submetam-se a Deus. Resistam ao diabo, e ele fugirá de vocês.” Veja a ordem: primeiro submissão a Deus, depois resistência ao mal. Ao enfrentar tentações, críticas ou injustiças, o foco não é no “inimigo”, mas em manter-se ancorado em Deus.
Essa atitude de humilhação diante de Deus pode parecer covardia para o olhar do mundo, acostumado à disputa, à autopromoção e ao confronto direto. Mas, na realidade, ela exige muita coragem e valentia. Submeter-se primeiro a Deus não é desistir de lutar — é escolher o campo certo da batalha, onde a vitória já foi conquistada. Resistir ao diabo sem orgulho, com o coração humilde, é um ato de força interior que nasce do Espírito e não do ego.
Deus luta por nós
A própria história de Israel mostra isso de forma viva. Na posse da Terra Prometida, e em várias batalhas no deserto, Deus repetia ao povo: “Vocês não terão que lutar nesta batalha; tomem posição, fiquem firmes e vejam o livramento que o Senhor dará” (cf. 2 Crônicas 20:17; Êxodo 14:14). O Senhor é chamado de “guerreiro” (Êxodo 15:3), porque a guerra, em última análise, pertence a Ele. Ao povo cabia apenas enfrentar o inimigo, assumir o lugar de obediência e confiança. Isso não era passividade, mas coragem: colocar-se na linha de frente sem armas humanas, confiando que Deus agiria.
Esse padrão bíblico revela um princípio espiritual atual: não precisamos lutar contra o mal na força do braço humano. Precisamos tomar posição em Deus — permanecer na verdade, não retroceder, não negociar princípios — e deixar que Ele faça o que só Ele pode fazer. Isso desarma as estratégias do mal e nos protege da tentação de usar as mesmas armas do inimigo.
Portais eternos — Rei da Glória
Essa verdade se torna ainda mais clara no Salmo 24:7-10:
“Levantem, ó portas, as suas cabeças; levantem-se, ó portais eternos, para que o Rei da Glória entre. Quem é esse Rei da Glória? O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso nas batalhas. Levantem, ó portas, as suas cabeças; levantem-se, ó portais eternos, para que o Rei da Glória entre. Quem é esse Rei da Glória? O Senhor dos Exércitos — Ele é o Rei da Glória!”
Essa imagem poética mostra que nós mesmos somos esses “portais eternos”. Quando abrimos o coração, o Rei da Glória entra e luta nossas batalhas. Não é uma guerra externa, mas um governo interior. E é por meio dessa presença que o mal é vencido — não por força, não por violência, mas pelo Espírito (cf. Zacarias 4:6).
Perda da visão interior e luta contra o visível
Desde o princípio, vemos essa dinâmica. Quando Adão caiu, seus olhos “se abriram” para o mundo visível (Gênesis 3:7), mas, na verdade, ele perdeu a visão da luz interior — aquela que “brilha mais e mais até ser dia perfeito” (Provérbios 4:18). Desde então, a humanidade passou a caminhar apenas pelo que vê, num mundo tenebroso, lutando contra o mal que aparece diante dos olhos. Mas a Escritura nos lembra que a verdadeira luta não é contra carne e sangue, nem contra o que vemos, mas contra as forças invisíveis (Efésios 6:12), nas regiões celestiais, em Cristo Jesus. Enquanto lutamos com armas humanas contra o mal visível, continuamos perdendo as batalhas; mas quando voltamos à luz interior — Cristo em nós — reencontramos o terreno onde a vitória já está garantida.
Restaurar a visão e a luz interior
A revelação final confirma a necessidade de recuperar a visão espiritual: “compra colírio para ungir os olhos, a fim de que vejas” (Ap 3:18). O Cristo ressuscitado diz: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir…” (Ap 3:20). Não vencemos no braço humano, mas “pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do testemunho” (Ap 12:11).
No fim, a própria Luz do Cordeiro governa por dentro: “A cidade não precisa de sol nem de lua para brilhar sobre ela, pois a glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada… Suas portas jamais se fecharão de dia, pois ali não haverá noite” (Ap 21:23–25). “Não haverá mais noite. Eles não precisarão de luz de lâmpada nem da luz do sol, pois o Senhor Deus os iluminará, e eles reinarão para todo o sempre” (Ap 22:5).
Gratidão e confiança
1 Tessalonicenses 5:18-19 (NTLH): “Deem graças em todas as situações porque esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus. Não atrapalhem a ação do Espírito Santo.”
Essa gratidão não é alienação, mas confiança ativa de que Deus está conduzindo e de que o Rei da Glória já entrou em nós. Quando tentamos lutar nas nossas próprias forças, confiando em nossos braços, atrapalhamos a ação do Espírito Santo. Mas quando escolhemos agradecer, nos submeter e abrir os portais do coração, o Espírito age livremente e o poder de Deus se manifesta.
Essa é a essência do que Salomão descobriu, do que os profetas anunciaram e do que Jesus cumpriu: não é pelo esforço humano, mas pelo Espírito. A coragem maior não é levantar a espada, mas abrir o coração; não é vencer debates, mas deixar o Rei da Glória governar. Assim o mal não apenas é discernido, mas vencido pelo bem, e a polarização perde o poder sobre nós.

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2 Comments
Os últimos parágrafos do seu texto tem no subtítulo as palavras chaves “gratidão e confiança” ou “gratidão e fé”, poderia eu dizer que estas palavras são portais para a ação do espírito santo de Deus em nós e sabemos o peso da palavra “gratidão”.
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