Antes de qualquer caminho

Antes de qualquer caminho

Antes de qualquer caminho

Antes de qualquer caminho

Antes de Qualquer Caminho

o interior precisa respirar

Ontem conversei longamente com dois jovens, em momentos diferentes.
Não falamos de escolhas.
Falamos, sem dizer, de sobrevivência.

Enquanto falavam, percebi algo simples e profundo:
a maioria de nós não vive como escolhe.
Vive como aprendeu a se proteger.

A vida ensina cedo.
Ensina na ausência.
Ensina na escassez.
Ensina quando errar custa caro demais.

Essas experiências não ficam na memória.
Elas descem.
E passam a decidir por nós.

Em algum ponto, o corpo aprende antes da mente.
Aprende a não depender.
A se antecipar.
A se defender.

Quando ouvi aqueles jovens falarem de futuro, não vi ambição.
Vi medo.
O dinheiro ali não era desejo.
Era garantia.

Garantia de que ninguém mais teria poder de abandoná-los.

Quando algo assume essa função,
deixa de ser ferramenta.
Torna-se sustentação.

Um deus silencioso.
Não escolhido.
Necessário.

Mas o que mais me tocou foi outra coisa.
A culpa.

Não como remorso declarado,
mas como identidade.
Como se o passado ainda tivesse voz ativa.

A sociedade lembra.
As pessoas lembram.
E, aos poucos, a própria pessoa não consegue mais esquecer.

Não há descanso quando o passado continua falando.

Em determinado momento, disse algo simples:
Deus não se lembra mais dos nossos pecados.

Não para apagar a história,
mas para retirar dela o direito de acusar.

O que vi não foi emoção.
Foi alívio.

Como se, por instantes, o corpo pudesse baixar a guarda.
Como se a vigilância interna pudesse descansar.
Como se a vida pudesse respirar.

Com um deles, havia história.
Com o outro, quase nenhuma.

Ainda assim, algo semelhante aconteceu nos dois.

Muito lentamente,
muito aos poucos,
eles começaram a se soltar.

Não porque eu dissesse algo certo,
mas porque evitei dizer algo errado.

Ouvir sem acusar
criou um espaço
onde o interior pôde respirar.

Talvez o maior sofrimento hoje
não seja o erro cometido,
mas a impossibilidade de sair dele por dentro.

A culpa constante não transforma.
Ela apenas mantém tudo tenso.

Ontem, evitei direcionar caminhos.
Evitei oferecer soluções.

Apenas permaneci ali,
enquanto algo afrouxava por dentro.

Talvez seja isso que chamamos de cura:
não quando tudo se resolve,
mas quando o interior para de lutar.

E quando isso acontece,
algo começa a ser lavado por dentro.

Não por esforço.
Mas por descanso.

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