Eu achava que era livre

Eu achava que era livre

homem saindo da escuridão para a luz

Eu achava que era livre

Existe um nó no peito quando começo a escrever sobre isso.

Não é raiva.
Não é vontade de provar que estou certo.

É uma mistura de incômodo… com compaixão.

Incômodo, porque começo a perceber o quanto fomos ensinados a acreditar em coisas que parecem verdade, mas não são.

E compaixão, porque por muito tempo eu também vivi assim — acreditando, defendendo… sem perceber.

Talvez esse peso exista porque não estou olhando para teorias.

Estou olhando para a vida real.

Para situações próximas… para pessoas que eu amo…
para lutas verdadeiras, tentativas sinceras…

E isso não me coloca em uma posição de quem tem respostas prontas.

Mas de quem também está olhando com mais cuidado…
buscando entender o que, de fato, está acontecendo.


Durante muito tempo, eu acreditei que tinha livre-arbítrio.

Que podia escolher o caminho que quisesse.
Que, diante do bem e do mal, a decisão estava nas minhas mãos.

Isso parecia tão óbvio… tão natural… que eu nunca parei para questionar.

Mas, com o tempo, observando a minha própria vida com mais honestidade, comecei a perceber algo que me incomodou profundamente:

mesmo sabendo o que era o bem… eu continuava fazendo o mal para mim e, consequentemente, para os outros.

Não era falta de conhecimento.
Eu sabia.

Não era falta de consciência.
Eu percebia.

E, ainda assim… eu não conseguia sustentar o bem que eu mesmo reconhecia.

Foi nesse ponto que algo começou a quebrar dentro de mim.

Porque, se eu fosse realmente livre,
escolher o bem seria o caminho natural.


Mas não é isso que vemos.
Nem em nós… nem no mundo.

O que vemos são pessoas que:

  • sabem, mas não fazem

  • querem, mas não conseguem

  • prometem, mas não sustentam

Isso não é ausência de escolha.

Isso é evidência de prisão.


Talvez o problema nunca tenha sido a capacidade de escolher…

Mas a condição de quem está escolhendo.

Porque há uma diferença muito grande entre:

fazer escolhas
e
ser livre para escolher.

Eu demorei muito tempo para perceber isso.

Porque acreditar que sou livre me dá uma sensação de controle.

Mas reconhecer que não sou…
é o que começa a abrir espaço para a verdade.


Essa percepção não ficou apenas em mim.

Eu me lembro de uma situação com um garoto de cerca de doze anos, em um bairro simples, onde a violência faz parte do dia a dia.

Ele chegou triste, porque tinha reagido com agressividade a um colega que havia ofendido sua mãe.

Conversamos com calma.

E, ao olhar melhor para o que tinha acontecido, algo ficou claro para ele:

ele havia reagido com violência… a partir de uma mentira.

Aquilo não tinha sido uma decisão pensada.

Foi natural.

Mas havia um ponto ainda mais profundo ali.

Ao longo de outras conversas, ele já tinha começado a perceber algo sobre si mesmo — algo que, muitas vezes, nós adultos levamos anos para admitir:

existe em nós uma inclinação natural para o mal.

Não é algo que aprendemos depois.

É algo que já está presente.

E, naquele momento, ele não tentou se justificar.

Ele reconheceu.

Perguntei como ele se sentia depois daquilo.

Ele disse que se sentia mal.

Não porque alguém mandou…
mas porque, de alguma forma, ele sabia que aquilo não era o bem.

E isso trouxe uma clareza importante:

não era falta de saber o que era certo.

Era falta de liberdade para sustentar o bem que ele já reconhecia.

Conversamos então sobre outra possibilidade.

Não de tentar se controlar…
mas de, naquele momento, ouvir uma direção diferente.

Algumas semanas depois, ele voltou com um novo relato.

Disse que, em uma situação parecida, teve vontade de reagir da mesma forma.

A vontade estava lá.

Isso não tinha mudado.

Mas, naquele momento, ele se lembrou da conversa…
e não seguiu o impulso.

Ainda não sabia exatamente como agir…
mas, pela primeira vez, não fez o que era natural.

E, ao contar isso, disse algo simples:

“dessa vez eu me senti bem.”


Talvez por isso isso fique ainda mais evidente em algumas situações mais extremas.

Basta olhar para a realidade de muitos dependentes químicos.

Em muitos casos, eles recorrem à religião como uma tentativa de mudança.

Mudam o ambiente.
Adotam novas práticas.
Tentam ajustar o comportamento.

E, por um tempo, até conseguem.

Mas, em muitos casos, o ciclo volta.

Não por falta de esforço.
Não por falta de desejo de mudar.

Mas porque a raiz continua a mesma.

E isso revela algo importante:

não é apenas uma questão de comportamento.

Porque, se fosse, bastaria decidir diferente…
e tudo estaria resolvido.

Mas não está.

E talvez seja exatamente aí que está uma das maiores confusões:

tentar tratar como comportamento…
algo que é, na verdade, condição.


Foi então que comecei a perceber algo que mudou completamente a forma como eu enxergava a vida.

O problema nunca foi apenas o que eu fazia.

O problema era de onde eu estava vivendo.

Enquanto eu acreditava que era livre,
continuava tentando mudar por esforço.

Tentava controlar comportamentos,
ajustar atitudes,
fazer o bem pela força da vontade.

Mas, no fundo, era sempre a mesma luta.

Porque a raiz permanecia a mesma.

E foi nesse ponto que algo começou a fazer sentido:

a verdadeira liberdade não nasce do homem.

Ela não vem da decisão,
nem da disciplina,
nem do conhecimento.

Ela vem de uma nova vida.

Uma vida que não é produzida por nós…
mas que pode passar a habitar em nós.

E quando isso começa a acontecer, algo muda de forma muito simples — e ao mesmo tempo profunda:

o bem deixa de ser um esforço…
e passa a ser uma expressão.

Não porque a vontade desapareceu.

Mas porque já não estamos mais sozinhos dentro de nós mesmos.

Existe uma nova direção.

Uma nova voz.

Uma nova presença.

E, pouco a pouco, aquilo que antes era natural — o mal — começa a perder força.

Não por repressão…
mas porque algo maior começa a ocupar o espaço.

Talvez seja por isso que a verdadeira transformação não começa quando tentamos ser melhores…

Mas quando deixamos de confiar em nós mesmos como fonte.

E passamos a viver a partir de algo que não vem de nós.

Foi isso que comecei a perceber.

E, curiosamente, foi isso que também começou a trazer descanso.

Porque, pela primeira vez,
a mudança não dependia mais de mim.


Talvez a maior liberdade não seja poder escolher tudo…

Mas, finalmente, não precisar mais viver sozinho dentro de si mesmo.


Para quem quiser aprofundar, deixo abaixo alguns trechos das Escrituras que iluminam esse entendimento:

Efésios 2:1-3

Romanos 7:18-19

João 8:34

2 Comments

  1. João Carlos de Carvalho disse:

    Há muitos anos passados eu te disse que abria mão do livre arbítrio pois não me trazia boas consequências , então entregar minha vida totalmente nas mãos de Deus e guiar as minhas atitudes não por vontade própria mas pela orientação do espírito santo de Deus e isso não me trouxe vida fácil mas paz de espírito.

  2. Jefferson Domingues disse:

    Bom dia a todos Parabéns Airton por compartilhar esse conteúdo que é tão esclarecedor nos dias atuais .

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