Quem são os bons da história?

Quem são os bons da história?

Um homem e três espelhos: conservador, progressista e isentão

Quem são os bons da história?

O poder das narrativas e a antiga tentação…

Todos nós vivemos dentro de narrativas.

Elas nos ajudam a interpretar o mundo, definir quem somos e identificar quem são os mocinhos e os vilões da história.

Os conservadores costumam acreditar que estão preservando aquilo que é bom e verdadeiro.

Os progressistas costumam acreditar que estão corrigindo injustiças e conduzindo a sociedade para um lugar melhor.

Os isentões costumam acreditar que conseguem enxergar os erros de ambos os lados com maior clareza.

O problema surge quando cada grupo conclui:

“Nós somos os bons.”

E, quase inevitavelmente:

“Eles são os maus.”

Talvez essa seja uma das narrativas mais antigas da humanidade.

A narrativa do Éden

No Éden, o homem desejou ocupar o lugar de Deus.

Não apenas desobedecer ou comer de um fruto proibido.

Mas assumir para si a capacidade de determinar, por conta própria, o que é o bem e o que é o mal.

“Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal.”
Gênesis 3:5

Desde então, seguimos repetindo o mesmo padrão.

Mudam-se os partidos, mudam-se as religiões, mudam-se os discursos, mas permanece a tentação de acreditar que finalmente encontramos o grupo dos justos.

E, quando acreditamos nisso, passamos a olhar para o outro não apenas como alguém que pensa diferente, mas como alguém moralmente inferior.

Assim, a política se transforma em religião.

E a religião, muitas vezes, deixa de conduzir à humildade para alimentar superioridade.

O coração humano

A Bíblia, porém, oferece uma visão profundamente humilde sobre a condição humana.

Ela não começa dizendo que o homem foi criado mau.

No princípio, Deus viu tudo quanto havia feito, e tudo era muito bom.

Mas, depois da queda, a narrativa bíblica mostra uma inclinação profunda no coração humano.

“O coração do homem é inclinado ao mal desde a infância.”
Gênesis 8:21

Isso significa que o problema não está apenas nos outros.

Ele também habita em nós.

Por isso, toda narrativa que nos coloca automaticamente no lugar dos bons merece ser examinada com cuidado.

Porque somos muito habilidosos em construir histórias que justificam nossos desejos, nossos medos, nossas preferências e até os nossos ressentimentos.

Adão disse:

“Foi a mulher que o Senhor me deu…”

Eva disse:

“A serpente me enganou…”

Desde o início, a narrativa aparece como uma forma de transferir culpa.

E talvez ainda façamos o mesmo.

A culpa é sempre do outro grupo, do outro partido, da outra religião, da outra geração, da outra pessoa.

Mas a palavra de Deus nos chama a uma honestidade mais profunda.

Paulo e a honestidade espiritual

O apóstolo Paulo, homem profundamente alcançado por Deus, não sustentou uma narrativa de superioridade sobre si mesmo.

Pelo contrário, ele confessou:

“Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.”
Romanos 7:19

Essa confissão desmonta a ilusão de que existem grupos humanos puros, plenamente bons, livres do autoengano.

Conservadores precisam desconfiar de si mesmos.

Progressistas precisam desconfiar de si mesmos.

Isentões também precisam desconfiar de si mesmos.

Religiosos, ateus, líderes, seguidores, todos nós precisamos reconhecer a mesma fragilidade.

A luta não acontece apenas entre “nós” e “eles”.

A luta acontece dentro de nós.

“Pois a carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne. Eles estão em conflito um com o outro, de modo que vocês não fazem o que desejam.”
Gálatas 5:17

Por isso, a narrativa bíblica é tão desconfortável.

Ela não nos permite simplesmente apontar para fora.

Ela nos convida a olhar para dentro.

Somente Deus é bom

Talvez por isso Jesus tenha sido tão direto:

“Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus.”
Marcos 10:18

Essa afirmação não nos conduz ao desespero.

Ela nos conduz à humildade.

Porque já não precisamos provar que somos os bons da história.

Podemos reconhecer que precisamos da graça tanto quanto qualquer outra pessoa.

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Quem são os maus?”

Mas:

“Senhor, o que ainda precisa ser transformado em mim?”

A esperança não está em nós

A esperança bíblica não repousa sobre a capacidade humana de se tornar boa por si mesma.

Jesus disse:

“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”
João 15:5

E também afirmou:

“Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o atrair.”
João 6:44

Paulo, por sua vez, escreveu:

“Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.”
Filipenses 2:13

Veja como tudo se conecta.

Se o coração humano é inclinado ao mal, então não basta apenas mudar de partido, de religião, de grupo ou de discurso.

É preciso algo mais profundo.

É preciso que Deus opere em nós.

Até o querer.

Até o realizar.

Por isso, o evangelho não nos convida a assumir o lugar de Deus.

Ele nos convida a reconhecer o Senhor.

Somente Deus é verdadeiramente bom. Quando nos colocamos no lugar de juízes absolutos, repetimos a antiga tentação do Éden.

O Senhor é o Espírito

Há uma frase bíblica muito profunda:

“O Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade.”
2 Coríntios 3:17

Talvez grande parte da humanidade ainda não conheça o Senhor como ele se define.

Fomos ensinados a vida toda a sermos senhores.

Senhores de nós mesmos.

Senhores da nossa verdade.

Senhores da nossa narrativa.

Senhores do bem e do mal.

Por isso, resistimos a qualquer senhorio.

Até mesmo ao senhorio do Espírito.

Mas a verdadeira liberdade, segundo Paulo, não está na ausência de senhorio.

A verdadeira liberdade está onde o Espírito do Senhor governa.

Isso muda tudo.

Porque o Senhor não se revela como tirano.

Ele se revela como bondade.

Mostra-me a tua glória

Talvez tudo isso nos conduza de volta a Moisés.

Ele pediu:

“Peço-te que me mostres a tua glória.”
Êxodo 33:18

E Deus respondeu:

“Diante de você farei passar toda a minha bondade.”
Êxodo 33:19

Isso é extraordinário.

Quando Moisés pede para ver a glória, Deus fala da sua bondade.

Talvez porque a verdadeira glória de Deus não seja o poder que domina, mas a bondade que se revela.

E talvez seja justamente essa bondade que nos conduz ao arrependimento.

“Ou será que você despreza as riquezas da sua bondade, tolerância e paciência, não reconhecendo que a bondade de Deus o leva ao arrependimento?”
Romanos 2:4

Não é a nossa bondade que nos salva.

É a bondade de Deus que nos encontra, nos atrai, nos confronta e nos transforma.

Descer do trono

Talvez o mundo precise menos de pessoas tentando provar que são as boas da história.

E mais de pessoas suficientemente humildes para dizer:

“Senhor, tem misericórdia de mim.”

Porque somente Deus é verdadeiramente bom.

E somente o Espírito pode formar em nós aquilo que, em nós mesmos, não conseguimos produzir.

As narrativas humanas frequentemente nos colocam no centro.

O evangelho nos convida a sair do centro.

As narrativas humanas nos ensinam a dividir o mundo entre bons e maus.

O evangelho nos revela que todos precisamos da graça.

As narrativas humanas nos estimulam a julgar.

O evangelho nos chama a conhecer o Senhor.

Talvez conhecer o Senhor seja deixar de tentar ocupar o seu lugar.

Porque somente Deus é verdadeiramente bom. E talvez seja justamente a sua bondade que continue nos conduzindo, pouco a pouco, ao arrependimento, à liberdade e à transformação.

2 Comments

  1. João Carlos de Carvalho disse:

    Quando encontramos quem valida nossa bondade caminhamos firmes rumo ao lago de 🔥.
    Ser bom é fácil o difícil é ser justo.
    Conheci alguém que repetia sempre que bonzinho é virtude de quem não tem nenhuma outra.

  2. Nadir Humber disse:

    Amém.

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