A bênção nunca foi um destino.
Sempre foi um fluxo.
Talvez uma das maiores mudanças de perspectiva que o evangelho nos propõe seja esta.
Durante muito tempo aprendemos a buscar bênçãos.
Oramos por bênçãos.
Esperamos por bênçãos.
Agradecemos pelas bênçãos recebidas.
Mas, desde o início, Deus parecia ter um propósito maior.
Quando chamou Abraão, não prometeu apenas que ele seria abençoado.
Prometeu que ele se tornaria uma bênção.
Talvez essa pequena diferença mude completamente a forma como enxergamos nossa caminhada com Deus.
Há uma expressão muito comum entre nós:
“Deus te abençoe.”
Mas será que já paramos para perguntar o que significa, de fato, abençoar?
Na Bíblia, bênção não é apenas receber algo de Deus.
Ela está ligada à vida que Deus comunica e que transborda para outras pessoas.
Deus não nos chamou apenas para buscar bênçãos, mas para nos tornarmos uma bênção.
Foi assim com Abraão.
“Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção.”
Gênesis 12:2
Perceba a ordem.
Primeiro Deus abençoa.
Depois, o homem torna-se uma bênção.
O destino da bênção nunca foi permanecer conosco.
A bênção sempre foi destinada a passar através de nós.
Em Deuteronômio, Moisés coloca diante do povo uma escolha:
“Prestem atenção! Hoje estou pondo diante de vocês a bênção e a maldição.”
Deuteronômio 11:26
A bênção aparece como um caminho.
Não apenas como algo que se recebe, mas como uma realidade na qual se entra, se permanece e se vive.
Talvez, sem perceber, tenhamos invertido essa lógica.
Aprendemos a buscar bênçãos.
A pedir bênçãos.
A esperar bênçãos.
Como se a vida com Deus fosse uma busca constante por algo que ainda nos falta.
Aprendemos a buscar a bênção, quando Deus deseja nos transformar em bênção.
Mas Jesus conduz nossos olhos para outro lugar.
No Sermão do Monte, Ele diz:
“O seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.”
Mateus 6:8
E, mais adiante, acrescenta:
“Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.”
Mateus 6:32
Comida.
Bebida.
Roupa.
Jesus não despreza essas necessidades.
Mas Ele mostra que viver correndo atrás delas é a lógica de quem ainda não conhece o Pai.
Por isso, Ele muda completamente o foco:
“Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas.”
Mateus 6:33
Não busquem primeiro as bênçãos.
Busquem o Reino.
As demais coisas serão acrescentadas.
Talvez ninguém ilustre melhor esse equívoco do que o filho mais velho da parábola contada por Jesus.
Ele reclamou:
“Nunca me deste nem um cabrito para eu festejar com os meus amigos.”
Lucas 15:29
Então ouviu do pai uma resposta extraordinária:
“Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu.”
Lucas 15:31
O problema nunca foi a falta de um cabrito.
Era a incapacidade de perceber aquilo que já havia recebido.
Ninguém vive como uma bênção enquanto acredita que ainda lhe falta a bênção.
Paulo faz uma afirmação que muda completamente nossa perspectiva:
“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo.”
Efésios 1:3
Paulo não diz:
“Deus nos abençoará.”
Ele diz:
“Deus nos abençoou.”
E, em Gálatas, explica que a bênção prometida a Abraão alcançou todas as nações por meio de Cristo:
“Isso para que em Cristo Jesus a bênção de Abraão chegasse também aos gentios, para que recebêssemos a promessa do Espírito mediante a fé.”
Gálatas 3:14
A bênção culmina no dom do Espírito.
Talvez a maior bênção não seja aquilo que Deus nos dá.
Talvez seja o próprio Deus habitando em nós pelo seu Espírito.
Jesus nos mostrou esse caminho de forma prática.
Diante de uma multidão faminta, havia apenas alguns pães e peixes.
Humanamente, era pouco.
Mas Jesus não começou lamentando a escassez.
Ele tomou o que havia em suas mãos.
Agradeceu ao Pai.
Abençoou.
E repartiu.
O pouco tornou-se suficiente para todos.
A bênção não começa na quantidade que temos, mas na gratidão pelo que recebemos.
Quem vive olhando apenas para o que falta dificilmente consegue repartir.
Quem reconhece o que já recebeu descobre que até o pouco pode tornar-se suficiente nas mãos de Deus.
Talvez esse seja o caminho da bênção:
Receber. Agradecer. Repartir.
Essa mesma lógica aparece em Pedro, na porta do templo.
Diante de um homem que pedia esmolas, Pedro não fingiu ter o que não tinha.
Ele disse:
“Não tenho prata nem ouro, mas o que tenho, isto lhe dou.”
Atos 3:6
Pedro não abençoou a partir daquilo que lhe faltava.
Abençoou a partir daquilo que havia recebido.
Ele não tinha dinheiro naquele momento, mas tinha algo maior: a vida de Cristo operando por meio dele.
Não abençoamos com aquilo que fingimos ter, mas com aquilo que realmente recebemos.
Talvez seja por isso que Jesus afirmou:
“Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.”
Atos 20:35
Não porque receber seja ruim.
Mas porque dar é a consequência natural de quem descobriu que já recebeu.
Quem ainda vive como necessitado corre atrás da bênção.
Quem descobriu o amor do Pai torna-se uma bênção.
Quem já foi abençoado não vive correndo atrás da bênção.
Vive repartindo a bênção.
Há um detalhe no final do livro de Jó que muitas vezes passa despercebido.
Jó havia perdido praticamente tudo.
Perdeu seus bens.
Perdeu seus filhos.
Perdeu sua saúde.
E, naquela condição de profunda dor, sua própria esposa lhe disse:
“Amaldiçoe a Deus e morra.”
Jó 2:9
Seus amigos, em vez de consolá-lo, insistiam em acusá-lo, como se todo aquele sofrimento só pudesse ser consequência de algum pecado escondido.
Jó estava cercado pela dor, pela acusação e pela desesperança.
Então ele teve um encontro com o Senhor.
E a Bíblia registra algo muito significativo:
“Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra.”
Jó 42:10
Perceba o que aconteceu.
Aquele homem que havia perdido tudo passou a interceder justamente por aqueles que o haviam acusado.
Enquanto Jó orava pelos seus amigos, Deus mudava a sua sorte.
Talvez esse seja um dos sinais mais profundos da restauração.
Não quando conseguimos explicar o nosso sofrimento.
Nem quando todas as circunstâncias já mudaram.
Mas quando nosso coração volta a desejar o bem daqueles que caminham conosco — até mesmo daqueles que nos feriram.
Jó não voltou a ser uma bênção porque sua vida foi restaurada.
Sua vida começou a ser restaurada quando ele voltou a ser uma bênção.
Talvez não seja por acaso.
A bênção nunca foi feita para permanecer presa em nós.
Ela sempre foi feita para fluir.
Essa mesma lógica aparece quando Jesus fala aos seus discípulos:
“Vocês são o sal da terra.”
Mateus 5:13
“Vocês são a luz do mundo.”
Mateus 5:14
Jesus não disse:
“Peçam para ser sal.”
Nem:
“Orem para ser luz.”
Ele afirmou uma realidade.
E, a partir dela, revelou uma responsabilidade.
O evangelho não começa dizendo: “façam para se tornar”.
Ele anuncia: “vocês receberam; agora vivam a partir do que receberam”.
Talvez seja essa a diferença entre a religião e o evangelho.
A religião muitas vezes nos ensina a buscar aquilo que ainda não temos.
O evangelho nos desperta para aquilo que já recebemos em Cristo.
Por isso, talvez valha a pena observar uma curiosidade.
Você já percebeu que os discípulos praticamente não utilizam a expressão “Deus te abençoe” no Novo Testamento?
As cartas falam constantemente de graça, paz, misericórdia, amor e comunhão.
Não porque a bênção tenha deixado de existir.
Mas porque, em Cristo, ela já havia sido concedida.
Talvez a pergunta já não seja:
“Como posso ser abençoado?”
Mas:
“Como posso me tornar uma bênção?”
A maior bênção que Deus pode conceder a alguém talvez seja transformá-lo em uma bênção para os outros.
O evangelho não nos convida a viver procurando bênçãos.
Convida-nos a viver sendo uma bênção.
A bênção nunca foi feita para ser acumulada.
Foi feita para fluir.
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Sou um consumidor contumaz de sorteios, loterias mas isso não faz de mim alguém que espera ganhar um grande prêmio para mudar minha trajetória. Sei que o grande prêmio já me foi dado com a benção da vida, como abençoado que sou viver e conviver, aceitar a natureza das pessoas e estar disponível para ajuda-las a perceber e reconhecer as bençãos de Deus, amar aquele que transgride de maneira equivocada, perdoar a cada momento estar disponível para ser benção na vida dele.