O descanso de Deus

No ateliê de cerâmica artesanal moldando um vaso de barro

O descanso de Deus

Uma pequena sutileza que muda a forma de perceber a vida.

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.”
Mateus 11:28

Há alguns dias publiquei um artigo com o título Tornando-se uma bênção.

Depois de publicá-lo, continuei meditando sobre o assunto.

E percebi algo que, até então, havia passado despercebido para mim.

O próprio título revelava uma maneira de pensar que carreguei durante muitos anos.

Ele estava escrito na voz ativa.

Como se nós nos tornássemos uma bênção pelo nosso próprio esforço.

Talvez o Evangelho diga exatamente o contrário.

Talvez não nos tornemos uma bênção.
Talvez Deus nos faça ser uma bênção.

Essa pequena diferença parece apenas gramatical.

Mas ela muda profundamente a forma de ler o Novo Testamento — e talvez a própria vida.

O convite de Jesus

Quando Jesus chama as pessoas, Ele não começa impondo uma nova lista de tarefas.

Seu convite é dirigido justamente aos cansados.

“Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.”
Mateus 11:28

Quem são esses cansados?

Talvez sejam aqueles que passaram a vida tentando.

Tentando mudar.

Tentando vencer a si mesmos.

Tentando agradar a Deus.

Tentando produzir aquilo que somente Deus pode produzir.

Antes de oferecer trabalho, Jesus oferece descanso.

Arrependam-se

A primeira mensagem pública de Jesus foi:

“Arrependam-se, pois o Reino dos céus está próximo.”
Mateus 4:17

Durante muito tempo entendemos arrependimento apenas como abandonar determinados comportamentos.

Mas a palavra grega metanoia aponta para uma mudança de mente, uma mudança na forma de pensar.

Talvez Jesus estivesse dizendo:

“Mudem completamente a maneira de enxergar a vida.”

Por quê?

Porque o Reino chegou.

O Rei chegou.

E quando um rei chega, alguém passa a governar.

Talvez o maior arrependimento seja deixar de acreditar que somos nós os autores da transformação da nossa própria vida.

A obra de Deus

Certo dia perguntaram a Jesus:

“O que precisamos fazer para realizar as obras que Deus requer?”
João 6:28

A resposta de Jesus surpreende:

“A obra de Deus é esta: crer naquele que ele enviou.”
João 6:29

Eles perguntaram sobre aquilo que deveriam fazer.

Jesus respondeu falando da obra de Deus.

Até a fé nasce do encontro com aquele que Deus enviou.

O Espírito continua essa obra

Depois, Jesus prometeu enviar outro Consolador.

O Espírito Santo.

E explicou:

“Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.”
João 16:8

Logo acrescenta:

“Do pecado, porque os homens não creem em mim.”
João 16:9

O Espírito continua realizando a obra iniciada por Cristo.

É Ele quem convence.

É Ele quem desperta.

É Ele quem conduz.

É Ele quem transforma.

Por isso Paulo escreve:

“Não atrapalhem a ação do Espírito Santo.”
1 Tessalonicenses 5:19 — NTLH

Mais tarde, escrevendo aos romanos, ele apresenta a mesma verdade por outro ângulo:

“Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês.”
Romanos 12:2 — NTLH

A transformação continua sendo necessária.

Mas o protagonista muda.

Não somos nós que produzimos a transformação.

Somos transformados pela ação de Deus.

O descanso

Talvez agora possamos compreender uma frase que parece contraditória.

“Esforcemo-nos, portanto, por entrar nesse descanso.”
Hebreus 4:11

Como alguém pode se esforçar para descansar?

Talvez o esforço não seja para produzir a obra.

Talvez seja para abandonar a necessidade de produzi-la.

Para deixar de confiar na própria força.

Para descansar na obra de Deus.

Cooperadores

Isso não significa passividade.

Paulo também escreve:

“Porque de Deus somos cooperadores.”
1 Coríntios 3:9 

Essa palavra é preciosa.

Não somos espectadores.

Também não somos os autores da obra.

Somos cooperadores.

Quem coopera participa da obra, mas não ocupa o lugar do autor.

Assim também acontece no Reino de Deus.

É Deus quem inicia.

É Deus quem conduz.

É Deus quem efetua.

Nós cooperamos com aquilo que Ele realiza.

A linguagem do Evangelho

Depois dessa percepção, comecei a notar algo curioso.

Grande parte do Novo Testamento parece nos conduzir para essa linguagem da voz passiva.

Não nos justificamos. Somos justificados.

Não nos santificamos. Somos santificados.

Não produzimos Cristo. Cristo é formado em nós.

Não fabricamos fruto. Frutificamos porque permanecemos na Videira.

Não nos transformamos por nós mesmos. Somos transformados.

Não nos tornamos uma bênção. Somos feitos uma bênção.

Talvez por isso o próprio título do artigo anterior devesse ser diferente.

Não “Tornando-se uma bênção”.

Mas:

“Sendo feitos uma bênção.”

A sutileza que muda tudo

É uma sutileza.

Mas uma sutileza que muda a forma de perceber a vida.

O pecado deixa de ser visto apenas como fazer coisas erradas.

Passa a ser também viver como se tudo dependesse de nós.

E a fé deixa de ser apenas acreditar em determinadas verdades.

Passa a ser confiar no Autor da obra.

Talvez seja por isso que Jesus não disse simplesmente:

“Imitem-me.”

Ele disse:

“Sigam-me.”

Imitar é tentar reproduzir.

Seguir é caminhar atrás de quem conhece o caminho.

Essa diferença parece pequena.

Mas muda completamente a forma de viver.

O verdadeiro descanso

Talvez seja por isso que Paulo escreveu:

“Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.”
Filipenses 2:13

No fim das contas, o Evangelho não conta a história de pessoas tentando alcançar Deus.

Conta a história de Deus vindo ao encontro do ser humano.

Conta a história de Cristo sendo formado em nós.

Conta a história do Espírito realizando, pouco a pouco, aquilo que jamais conseguiríamos produzir sozinhos.

Talvez o verdadeiro descanso seja justamente este.

Deixar de ocupar o lugar do Autor.

Aceitar, com gratidão, o privilégio de ser cooperador da obra que Deus já começou.

Só agradecer…
e deixar Deus agir.

2 Comments

  1. João Carlos de Carvalho disse:

    Abençoado seja quem consegue se perceber como uma benção de Deus, pois estará a serviço da obra divina.

  2. Rosana Ferreira Cavalcanti disse:

    Deus tira a venda dos nossos olhos a fim de glorificar o Filho Jesus Cristo sendo formado em nós.
    Gratidão ao Pai por fazer por mim todas as coisas. Realmente somos cooperadores da obra de Deus.

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