Talvez uma das experiências mais frustrantes da vida seja querer sinceramente deixar de fazer alguma coisa — e descobrir que não conseguimos.
Prometemos que será a última vez.
Fracassamos.
Arrependemo-nos.
Sentimos culpa.
Fazemos novas promessas.
Criamos regras mais rígidas.
E, algum tempo depois, fracassamos novamente.
Fracasso. Arrependimento. Condenação. Culpa. Promessa. Esforço. Novo fracasso.
Esse círculo pode aparecer de maneira muito evidente nas dependências e compulsões, embora suas causas sejam complexas e possam exigir também cuidados médicos e psicológicos.
Mas, em alguma medida, existe uma luta semelhante dentro de todos nós.
A Bíblia fala de forças interiores que podemos reconhecer como desejos da carne.
João fala de “desejo da carne, desejo dos olhos e arrogância da vida”. ↗
Talvez possamos chamar tudo isso, numa linguagem muito simples, de:
desejos ardentes.
São desejos que parecem maiores do que nós.
E a Bíblia traz uma notícia inicialmente desconcertante:
nossa força não é suficiente para vencê-los.
Paulo fala de práticas religiosas que parecem extremamente sábias.
Regras.
Proibições.
Rigor com o próprio corpo.
Ascetismo.
Tudo isso pode transmitir a impressão de disciplina e espiritualidade.
Mas ele faz uma afirmação surpreendente:
essas coisas não têm valor algum contra a sensualidade, para refrear os impulsos da carne. ↗
Isso é muito sério.
Porque nossa reação natural diante de um desejo que consideramos errado costuma ser aumentar o controle:
“Desta vez vou conseguir.”
“Vou me disciplinar.”
“Vou criar regras.”
“Vou resistir.”
“Vou ser mais forte.”
Mas Paulo parece estar dizendo:
isso não resolve o problema.
Pode produzir aparência de sabedoria.
Pode produzir comportamento religioso.
Pode até conter exteriormente determinadas ações por algum tempo.
Mas não consegue resolver a força dos desejos da carne.
E talvez exista uma razão muito simples:
Estamos tentando vencer a carne usando a própria carne.
Em Gálatas, Paulo descreve o conflito de uma maneira diferente da que normalmente imaginamos:
“A carne deseja o que é contrário ao Espírito; o Espírito, o que é contrário à carne.” ↗
Observe quem está lutando.
Paulo não diz:
você contra sua carne.
Ele diz:
a carne contra o Espírito;
o Espírito contra a carne.
E acrescenta:
para que vocês não façam o que desejam
Isso muda tudo.
Talvez tenhamos passado anos tentando assumir uma luta que não conseguimos vencer.
E, cada vez que perdemos, vem a culpa:
“Eu deveria ter sido mais forte.”
“Eu deveria ter resistido.”
“Deus deve estar decepcionado comigo.”
“Agora vou me esforçar ainda mais.”
E o círculo recomeça.
Mas Paulo apresenta outro caminho:
andar pelo Espírito.
Não é a carne ficando suficientemente forte para derrotar a carne.
É o Espírito se opondo à carne.
A história do Éden já apresenta algo parecido.
A mulher vê que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento.
Desejo.
Olhos.
E a antiga sedução:
“Vocês serão como Deus.” ↗
Séculos depois, João fala do desejo da carne, do desejo dos olhos e da arrogância da vida.
A linguagem não é idêntica, e não precisamos forçar uma equivalência palavra por palavra.
Mas a semelhança é difícil de ignorar.
O problema humano não parece ser simplesmente falta de informação sobre o certo e o errado.
Adão e Eva tinham uma regra perfeitamente clara.
E a regra não foi suficiente para vencer o desejo.
Talvez seja justamente por isso que a solução de Deus não seja simplesmente nos entregar mais regras.
Jesus faz um convite:
“Venham a mim.” ↗
E acrescenta:
“e eu lhes darei descanso.” ↗
Em João 15 ele usa outra palavra:
“Permaneçam em mim.”
O ramo não recebe uma ordem para fabricar uvas.
Ele permanece na videira.
“Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, […] Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim.” ↗
E conclui:
“sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.” ↗
Talvez exista aqui uma liberdade imensa.
Eu não preciso produzir pela minha força aquilo que somente a vida de Deus pode produzir em mim.
O autor de Hebreus chega a usar uma expressão aparentemente contraditória:
“Esforcemo-nos por entrar nesse descanso…” ↗
Talvez um dos nossos maiores esforços seja justamente este:
parar de confiar na nossa própria força.
Paulo escreve:
“Ofereçam o corpo de vocês.” ↗
E logo depois:
“transformem-se pela renovação da sua mente…” ↗
A palavra traduzida por “transformem-se” está ligada à ideia de metamorfose.
E há uma nuance preciosa: ela também pode ser compreendida ressaltando a ação recebida:
“sejam transformados.”
Em outra carta, Paulo usa o mesmo verbo e deixa isso ainda mais claro:
“somos transformados na sua própria imagem, com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito.” ↗
Eu me apresento. Permaneço. E sou transformado.
Não fabrico a transformação.
Aqui chegamos a algo maravilhoso.
A Bíblia diz que o Filho é:
“o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser…” ↗
O resplendor torna perceptível a luz que não enxergávamos.
Cristo torna conhecido o Deus invisível.
Por isso Jesus pode dizer:
“Quem vê a mim vê o Pai.” ↗
E Paulo revela algo extraordinário:
“Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo…” ↗
“Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo…” ↗
“Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio.” ↗
Veja o movimento:
Deus estava em Cristo.
E agora:
Deus age por nosso intermédio.
Como isso é possível?
Talvez aqui esteja o tesouro que permaneceu escondido durante gerações.
Paulo fala de um mistério que esteve oculto durante épocas e gerações e que agora foi revelado.
E resume esse mistério em pouquíssimas palavras:
“Cristo em vocês, a esperança da glória.” ↗
Cristo em Jesus.
E agora:
Cristo sendo formado em nós.
“Meus filhos, novamente estou sofrendo dores de parto por sua causa, até que Cristo seja formado em vocês.” ↗
Não é simplesmente aprender a imitar exteriormente Jesus.
É transformação.
É metamorfose.
É o Espírito realizando em nós aquilo que nossa força jamais conseguiria produzir.
Isso talvez explique uma escolha muito bonita das palavras de Paulo.
Ele fala das:
obras da carne.
Mas, quando chega ao Espírito, não fala das “obras do Espírito”.
Ele diz:
“o fruto do Espírito é amor, alegria, paz…” ↗
Fruto.
O ramo não fabrica fruto.
O ramo permanece.
A vida produz.
E Jesus diz:
“O meu Pai é glorificado pelo fato de vocês darem muito fruto…” ↗
O Pai é o agricultor.
Cristo é a videira.
Nós somos os ramos.
O Espírito produz vida em nós.
E o fruto aparece.
Talvez agora possamos finalmente quebrar aquele círculo:
fracasso → arrependimento → condenação → culpa → esforço → novo fracasso.
Porque Paulo anuncia:
“Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.” ↗
Não precisamos da condenação para produzir transformação.
Não precisamos da culpa para produzir santidade.
Não precisamos nos tornar mais fortes do que nossos desejos ardentes.
Precisamos reconhecer nossa incapacidade e deixar de tentar fazer aquilo que pertence ao Espírito.
O Espírito luta contra a carne.
Nossa parte?
Apresentar-nos.
Permanecer.
Andar pelo Espírito.
Não apagar o Espírito.
E descansar.
Porque, no final, Paulo nos oferece talvez a explicação mais simples de todas:
“Deus é quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar.” ↗
Tudo provém de Deus.
E então começamos a compreender o mistério:
Cristo em nós.
Não apenas Cristo diante de nós.
Não apenas Cristo como alguém que tentamos imitar.
Cristo sendo formado em nós.
O resplendor da glória de Deus começando a aparecer em filhos que estão sendo transformados na mesma imagem.
Não pela força da carne.
Pelo Espírito.
E, por isso, finalmente podemos descansar daquela interminável tentativa de transformar a nós mesmos.
Cristo em nós, a esperança da glória.
Aleluia!
📖 Colossenses 2:20–23 ↗
📖 Gálatas 5:16–25 ↗
📖 1 João 2:15–17 ↗
📖 João 15:1–8 ↗
📖 Mateus 11:28–30 ↗
📖 Hebreus 4:9–11 ↗
📖 Romanos 12:1–2 ↗
📖 2 Coríntios 3:17–18 ↗
📖 2 Coríntios 5:18–20 ↗
📖 Gálatas 4:19 ↗
📖 Colossenses 1:26–27 ↗
📖 Romanos 8:1–14 ↗
📖 Filipenses 2:13 ↗
3 Comments
Excelente, muito bom
Parece que você fez uma retrospectiva dos textos anteriores condensando tudo nessa mensagem, uso outras palavras do vocabulário comum, mas sim é aceitar que não tenho capacidade de lutar contra esses “instintos” então a rendição para que o espírito trave essa batalha por mim é a solução em tudo que posso e não posso tem a ação do espírito e quando assumo o protagonismo tenho voltar e deixar que ele corrija a direção.
Verdeiramente excelente! Texto para guardar e rever sempre. Obrigada!