A boca revela quem nos governa
No princípio, Deus falou.
“Haja luz.”
E houve luz.
Antes de qualquer obra realizada pelas mãos do homem, encontramos Deus falando. Sua palavra não é vazia. Não é apenas som. Deus fala e aquilo que ele diz produz.
Depois, Deus fez o homem à sua imagem e semelhança.
E o homem também fala.
Talvez tenhamos nos acostumado tanto com isso que já não percebamos como é extraordinário. Pensamos, ouvimos, guardamos palavras no coração e as pronunciamos. Por meio delas consolamos, ensinamos, encorajamos, ferimos, enganamos, perdoamos, condenamos, bendizemos e amaldiçoamos.
A palavra sai da boca e alguma coisa acontece.
Jesus contou uma parábola sobre uma semente lançada sobre diferentes tipos de solo.
Depois explicou que a semente era a palavra.
Alguns ouviam, mas não entendiam.
Ao explicar por quê, Jesus recordou:
“Vocês ouvirão com os ouvidos, mas jamais entenderão… Pois o coração deste povo se tornou insensível; de má vontade ouviram com os ouvidos.”
A palavra entra pelo ouvido.
Mas ouvir o som não significa necessariamente receber a palavra.
Por isso Jesus repetia:
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Todos tinham ouvidos.
Mas nem todos ouviam.
Há um caminho entre o ouvido e o coração.
E talvez por isso também sejamos ensinados:
“Sejam todos prontos para ouvir, tardios para falar.”
Primeiro, ouvir.
Depois, falar.
Entre uma coisa e outra está o coração.
“Acima de tudo, guarde o seu coração, pois dele procedem as fontes da vida.”
Jesus disse:
“A boca fala do que está cheio o coração.”
E também:
“O que sai da boca vem do coração, e é isso que contamina o homem.”
A boca, portanto, revela uma fonte.
Podemos vigiar nossas palavras durante algum tempo. Podemos medir frases, escolher expressões e até aprender uma linguagem religiosa.
Mas, cedo ou tarde, aquilo que enche o coração encontra uma saída.
Por isso o problema não começa na boca.
Começa na fonte.
Tiago compara a língua ao freio colocado na boca de um cavalo.
Uma pequena peça conduz um animal muito maior.
Depois fala dos grandes navios, empurrados por fortes ventos e dirigidos por um leme muito pequeno.
Assim também é a língua.
Pequena.
Mas capaz de determinar uma direção.
E Tiago faz uma afirmação impressionante:
“Se alguém não tropeça no falar, é perfeito, sendo também capaz de dominar todo o seu corpo.”
A língua e o corpo estão conectados.
O pequeno leme aponta a direção do grande navio.
Mas, pouco depois, Tiago coloca diante de nós uma dificuldade aparentemente insolúvel:
“Nenhum ser humano consegue domar a língua.”
Então como pode existir aquele que não tropeça no falar?
Talvez a resposta não esteja em conseguir finalmente dominar a língua pela força.
Talvez esteja em descobrir quem a governa.
Quando Moisés disse que tinha dificuldade para falar, Deus não lhe entregou uma técnica de comunicação.
Disse:
“Eu estarei com a sua boca e lhe ensinarei o que você deve falar.”
Depois, Arão foi colocado ao lado dele.
Moisés colocaria as palavras na boca de Arão.
Arão seria sua boca.
E Deus estaria com a boca dos dois.
A fonte não era Arão.
A fonte não era Moisés.
Deus falava, Moisés recebia, Arão pronunciava.
Muito tempo depois, Jesus diria aos seus discípulos que, quando fossem levados diante de governadores e reis, não deveriam ficar preocupados com o que diriam.
Naquela hora lhes seria dado o que falar.
“Pois não serão vocês que estarão falando, mas o Espírito do Pai de vocês falará por meio de vocês.”
A boca continuaria sendo deles.
Mas a fonte seria outra.
Antes de Davi chegar à presença de Saul, alguém o descreveu:
“Conheço um filho de Jessé… sabe tocar, é valente, homem de guerra, sensato no falar… e o Senhor está com ele.”
Davi era reconhecido por seu discernimento nas palavras.
Mas sua história também mostraria como uma palavra pode produzir vida ou morte.
Quando Simei o amaldiçoou, Davi tinha autoridade para responder com uma palavra que poderia resultar na morte daquele homem.
Não o fez.
Em outro momento, porém, uma ordem de Davi enviada ao campo de batalha terminou com a morte de Urias.
Davi conheceu os dois lados da palavra.
Talvez isso nos ajude a ouvir com outro peso sua oração:
“Põe guarda, Senhor, à minha boca; vigia a porta dos meus lábios.”
Ele não disse apenas:
“Eu guardarei a minha boca.”
Pediu ao Senhor que a guardasse.
E depois de seu pecado, sua oração foi ainda mais profunda:
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.”
“Não me retires o teu Santo Espírito.”
E então:
“Senhor, abre os meus lábios, e a minha boca manifestará os teus louvores.”
Guarda a minha boca.
Abre os meus lábios.
Não retires de mim o teu Espírito.
Davi havia entendido que o problema não estava apenas nos lábios.
Estava na fonte.
Com a língua bendizemos o Senhor.
E com a mesma língua amaldiçoamos pessoas feitas à semelhança de Deus.
Tiago pergunta como da mesma boca podem proceder bênção e maldição.
E usa novamente a imagem da fonte:
“Pode uma mesma fonte fazer jorrar água doce e água amarga?”
Bendizer e maldizer guardam uma imagem muito simples.
Bem-dizer.
Mal-dizer.
Em espanhol isso ainda pode ser ouvido claramente:
“Dios te bendiga.”
Que Deus te abençoe.
Que Deus te bem-diga.
Não porque a palavra humana possua em si mesma algum poder mágico.
Mas porque palavras carregam aquilo que está em sua fonte.
Por isso está escrito:
“A morte e a vida estão no poder da língua.”
A língua pode consolar ou destruir.
Pode reconciliar ou separar.
Pode revelar a verdade ou construir uma mentira.
Pode libertar ou aprisionar.
Pode bem-dizer.
Pode mal-dizer.
Jesus disse que o diabo é mentiroso e pai da mentira.
Mas isso não significa que todo engano se apresente como uma mentira evidente.
Desde o princípio, a serpente se aproximou da mulher falando sobre aquilo que Deus havia dito:
“Foi isso mesmo que Deus disse?”
Ela não começou negando a Palavra.
Começou distorcendo-a.
Havia verdade misturada ao engano.
Os olhos realmente se abriram.
O homem realmente passou a conhecer o bem e o mal.
Mas aquela palavra o conduziu à morte.
O engano pode carregar palavras verdadeiras e ainda assim conduzir na direção errada.
Deus fala.
E sua palavra é verdade.
O maligno também fala.
Mas sua palavra conduz ao engano.
O homem, feito à imagem e semelhança de Deus, também fala.
Por isso não basta perguntar se uma frase parece verdadeira.
É necessário discernir sua fonte, sua direção e seu fruto.
Esse mesmo modo de agir reaparece quando Jesus é tentado no deserto.
O diabo não diz que Deus não existe.
Não diz que as Escrituras são falsas.
Ele diz:
“Está escrito…”
E cita a Palavra de Deus.
A letra estava correta.
Mas estava sendo usada para conduzir Jesus a lançar-se do alto do templo.
Jesus respondeu:
“Também está escrito…”
Não era a Escritura contra a Escritura.
Era necessário discernir de que fonte vinha aquela palavra e para onde ela pretendia conduzir.
Isso torna muito significativa a afirmação:
“A letra mata, mas o Espírito vivifica.”
Paulo falava da diferença entre a letra gravada e o ministério do Espírito.
Não disse que a letra é morta.
Disse:
A letra mata.
E Jesus disse:
“O Espírito é o que vivifica.”
E acrescentou:
“As palavras que eu disse a vocês são espírito e vida.”
A vida, portanto, não está simplesmente em possuir a letra, conhecê-la ou repeti-la.
A vida vem do Espírito.
Paulo disse que somos como uma carta de Cristo, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas no coração.
Novamente chegamos à fonte.
A palavra é recebida.
O Espírito vivifica.
O coração é alcançado.
E aquilo que enche o coração encontra uma saída pela boca.
Por isso não basta perguntar:
O que está escrito?
Também podemos perguntar:
De que fonte está vindo essa palavra?
Para onde ela está me conduzindo?
Que fruto ela está produzindo?
Esse risco não ficou no jardim nem terminou no deserto.
Podemos estar dentro de uma igreja.
Podemos conhecer profundamente a Bíblia.
Podemos citar corretamente as Escrituras.
Podemos ensinar.
Podemos pregar.
Podemos escrever.
E ainda assim precisamos discernir a fonte.
O engano não precisa chegar dizendo:
“A Palavra de Deus é mentira.”
Pode chegar dizendo:
“Está escrito…”
Por isso conhecer a letra, embora precioso, não elimina a necessidade de ouvir.
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz.
Uma palavra pode parecer perfeitamente correta e ainda produzir orgulho, condenação, divisão, ódio, ganância ou domínio sobre o outro.
Por outro lado, o fruto do Espírito se manifesta em amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio.
Isso não significa que toda palavra que vem do Espírito será agradável.
Jesus disse palavras duras.
Mas suas palavras eram espírito e vida.
O fruto também revela a fonte.
Nenhum ser humano consegue domar a língua.
Mas domínio próprio é fruto do Espírito.
Isso muda tudo.
O domínio próprio não é simplesmente o homem conseguindo governar a si mesmo.
É o homem deixando de ser governado por seus próprios impulsos e aprendendo a andar pelo Espírito.
O Espírito governa.
O coração é transformado.
A boca fala daquilo que enche o coração.
A língua aponta uma direção.
E o corpo segue.
Espírito → coração → boca → língua → corpo.
A palavra se transforma em obra.
Foi assim que Jesus descreveu sua própria relação com o Pai:
“As palavras que eu digo a vocês não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, realiza as suas obras.”
Palavra e obra.
A fonte e aquilo que dela procede.
“Aquele que fala, fale como quem transmite palavras de Deus.”
Talvez aqui esteja uma das maiores responsabilidades daquele que abre a boca.
Não falar para vencer.
Não falar para demonstrar conhecimento.
Não falar simplesmente porque pode falar.
Ouvir.
Receber.
Guardar no coração.
E então falar.
Porque uma palavra que veio da fonte certa pode chegar ao ouvido de outra pessoa, alcançar seu coração e produzir fruto.
A palavra entra.
A palavra permanece.
A palavra sai.
E alcança outro ouvido.
Deus falou:
“Haja luz.”
E houve luz.
Depois, aquele que é a luz do mundo disse aos seus:
“Vocês são a luz do mundo.”
Talvez nossa semelhança com o Criador não esteja simplesmente no fato de termos recebido a capacidade de falar.
Ela começa a tornar-se visível quando aquilo que sai de nossa boca procede da fonte da vida.
Por isso, mais importante do que descobrir o poder de nossas palavras é discernir quem está falando em nós e através de nós.
A boca é nossa.
A língua pode dirigir todo o corpo.
Mas é a fonte que determina se dela correrá água doce ou amarga.
A palavra revela a fonte.