A ousadia da bondade

A ousadia da bondade

Homem batendo na porta durante a noite

Quando o amor nos faz perder a vergonha de pedir

Um homem recebeu um amigo à meia-noite. O visitante havia chegado de viagem e não havia pão para lhe oferecer.

Então, procurou outro amigo e pediu três pães.

Mas a porta estava fechada. Todos já estavam deitados. Não era hora de incomodar ninguém.

Mesmo assim, ele bateu.

Jesus conta que, ainda que o amigo não se levantasse por amizade, acabaria atendendo por causa da sua anaídeia.

Essa palavra grega, ἀναίδεια (anaídeia), pode significar descaramento, falta de vergonha, ousadia ou atrevimento.

Que palavra surpreendente!

O homem não estava pedindo para satisfazer sua própria fome. Estava procurando alimentar alguém que havia chegado à sua casa.

A bondade o colocou em movimento.

E a necessidade do outro se tornou mais importante que seu próprio constrangimento.


A ousadia de fazer o bem

Jesus percorreu cidades e povoados fazendo o bem.

Curou enfermos, alimentou multidões, libertou oprimidos e acolheu pessoas rejeitadas.

Muitas vezes, seus atos de bondade contrariaram costumes, expectativas e interpretações religiosas.

Quando curou um homem no sábado, perguntou se naquele dia era permitido fazer o bem ou fazer o mal, salvar a vida ou matar.

A bondade não se deixou aprisionar pelo medo de incomodar.

Mas existe uma questão importante.

Nem sempre aquilo que desejamos fazer pelo outro é verdadeiramente bom para ele.

Podemos agir com as melhores intenções e, ainda assim, estar enganados.

Por isso, a ousadia precisa caminhar acompanhada da humildade.


Não sabemos o que pedir como convém

Paulo reconheceu nossa limitação:

“Não sabemos o que devemos pedir em oração, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.”

Isso é extraordinário.

Mesmo quando desejamos ajudar, nem sempre sabemos o que pedir, o que oferecer ou como agir.

O homem da parábola sabia que precisava de pão.

Nós, muitas vezes, nem sequer sabemos qual é a verdadeira necessidade daquele que está diante de nós.

E Jesus, depois de ensinar a pedir, buscar e bater, revela algo maravilhoso:

“Quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lhe pedirem!”

O Pai não nos oferece simplesmente os recursos para realizarmos tudo aquilo que imaginamos ser bom.

Ele nos dá o Espírito Santo.

E o Espírito intercede por nós segundo a vontade de Deus.


Quem tem ouvidos para ouvir, ouça

Se não sabemos pedir como convém, ouvir torna-se tão importante quanto pedir.

O Espírito não nos foi dado apenas para consolar nossa insuficiência, mas também para nos conduzir.

Paulo escreveu:

“Não apaguem o Espírito.”

E também:

“Examinem tudo. Retenham o que é bom.”

Ouvir o Espírito não significa abandonar o discernimento. Significa reconhecer que nossa compreensão é limitada e permanecer atentos à direção de Deus.

A bondade nos coloca em movimento. A humildade nos dispõe a ouvir. E a fé nos conduz a agir.

Não porque compreendemos tudo.

Mas porque confiamos naquele que nos enviou.


Cristo em nós

Jesus afirmou:

“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”

E Paulo revelou o mistério que esteve oculto durante gerações:

“Cristo em vocês, a esperança da glória.”

Tudo foi criado por meio de Cristo e para ele. Nele tudo subsiste.

Portanto, não fazemos o bem para que Cristo venha habitar em nós.

É pela vida de Cristo em nós que sua bondade pode encontrar expressão em nossas atitudes.

Deus já nos abençoou em Cristo.

E agora caminhamos pela fé, porque o justo viverá pela fé.

Uma fé que atua pelo amor.


O descanso da bondade

Jesus nos enviou ao mundo e prometeu estar conosco todos os dias.

Não nos enviou porque já compreendemos todos os mistérios, mas para caminharmos confiando nele.

E há uma liberdade extraordinária quando deixamos de viver exclusivamente para nossas próprias necessidades.

A necessidade do outro encontra lugar em nosso coração.

A bondade nos move.

O Espírito nos conduz.

E encontramos descanso.

Não porque todas as nossas necessidades desapareceram, mas porque já não somos governados por elas.

O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado.

Assim, podemos pedir com ousadia, ouvir com humildade e caminhar pela fé.

Porque não somos nós a fonte da bondade.

É Cristo em nós.

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