Esta reflexão nasceu de uma pergunta que permaneceu depois do artigo “Desejos Ardentes”.
Se os desejos da carne não são vencidos simplesmente pelo esforço humano, como compreender então uma ordem tão direta de Paulo?
“Façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês.”
À primeira vista, parece simples: há alguma coisa em mim que preciso matar.
Mas Paulo não disse apenas isso.
Em outro lugar, escreveu:
“Se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão.”
Duas pequenas palavras mudam profundamente a leitura:
pelo Espírito.
Na carta aos Gálatas, Paulo acrescenta algo que facilmente passa despercebido:
“A carne deseja o que é contrário ao Espírito; e o Espírito, o que é contrário à carne.”
Não é apenas a carne que luta contra o Espírito.
O Espírito também se opõe à carne.
Então Paulo não diz: vençam primeiro a carne para depois viver pelo Espírito.
Ele diz:
“Vivam pelo Espírito, e de modo nenhum satisfarão os desejos da carne.”
A direção é outra.
Em Filipenses, encontramos outra frase aparentemente paradoxal:
“Ponham em ação a salvação de vocês…”
E, imediatamente:
“Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar.”
Eu faço.
Mas Deus opera em mim o querer e o realizar.
Eu faço morrer.
Mas faço pelo Espírito.
E então uma frase muito antiga lança uma luz inesperada sobre essa reflexão:
“Vejam agora que eu sou o único, eu mesmo. Não há deus além de mim. Faço morrer e faço viver…”
Deus diz:
“Faço morrer e faço viver.”
Não precisamos transformar essa frase de Deuteronômio numa explicação direta das palavras de Paulo. Os contextos são diferentes.
Mas é difícil não perceber a beleza da aproximação.
Paulo também fala de morte e vida:
“Vocês morreram…”
E logo depois:
“Cristo, que é a vida de vocês…”
Então:
“Façam morrer…”
Talvez aqui esteja uma frase que precisamos ouvir muitas vezes:
“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”
Não alguma coisa.
Coisa alguma.
Isso inclui o nosso próprio esforço para vencer aquilo que pertence à carne.
E Paulo nos mostra algo igualmente simples quando fala da vida pelo Espírito.
Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são apresentados como resultado do esforço da carne para tornar-se melhor.
Paulo lhes dá outro nome:
fruto do Espírito.
Fruto não é fabricado pelo ramo.
Jesus havia dito:
“Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo…”
E então:
“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”
O ramo não produz vida. O ramo permanece na Vida — e o fruto aparece.
Há ainda uma coisa muito simples que pode passar despercebida.
Paulo diz:
“Vivam pelo Espírito.”
E quando descreve o fruto desse Espírito, começa por uma palavra:
amor.
Pouco antes, ele já havia escrito:
“Toda a Lei se resume num só mandamento: ‘Ame o seu próximo como a si mesmo.’”
Talvez “fazer morrer” não possa ser separado de “dar fruto”.
Quando o Espírito produz amor em mim, aquilo que pertence à carne começa a perder espaço.
O amor não inveja.
Não busca os próprios interesses.
Não guarda rancor.
Não é apenas alguma coisa morrendo.
É outra Vida aparecendo.
E Jesus, justamente quando falou da videira, dos ramos e do fruto, disse:
“O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei.”
Talvez tudo comece aqui:
permanecer nele.
E o fruto dessa Vida começa a aparecer em uma direção muito concreta:
o outro.
Há ainda uma mudança muito bonita na medida desse amor.
Antes:
“Ame o seu próximo como a si mesmo.”
Eu ainda apareço na frase como referência:
como a mim mesmo.
Mas Jesus vai além:
“Amem-se uns aos outros como eu os amei.”
Agora a medida já não sou eu.
A medida é o amor com que fomos amados.
Não é mais o meu desejo, o meu interesse ou a minha medida que ocupa o centro.
A referência passa a ser o amor de Cristo.
E Jesus ainda diz:
“Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos.”
Esse amor não busca os próprios interesses.
Ele se entrega pelo outro.
Talvez seja justamente aí que alguma coisa comece a morrer em mim:
quando eu deixo de ser a medida.
Talvez “façam morrer” não seja um chamado para o velho homem lutar contra o velho homem até conseguir vencê-lo.
Paulo aponta repetidamente para outra direção:
pelo Espírito.
O Espírito se opõe à carne.
Deus opera o querer e o realizar.
O fruto é do Espírito.
E o fruto começa com amor.
Cristo é a nossa vida.
E sem ele não podemos fazer coisa alguma.
Isso não elimina o nosso fazer. Paulo continua dizendo:
“Façam morrer.”
Mas elimina a ideia de um fazer independente da Vida.
E talvez agora possamos enxergar um pouco mais.
Não é apenas alguma coisa em mim que precisa morrer.
É o amor de Cristo aparecendo em mim que começa a deslocar o meu próprio eu do centro.
Talvez, então, a questão não seja:
Como conseguirei fazer morrer a carne?
Talvez seja:
De quem estou vivendo?
E, se vivo dele, uma outra pergunta começa naturalmente a aparecer:
Quem está no centro: eu ou o outro?
Porque aquele que disse:
“Faço morrer”
é o mesmo que disse:
“Faço viver.”
1 Comment
Toda mensagem falando de conversão, mudança de rota, morrer o velho para nascer o novo, talvez seja bom perceber que o morrer e o nascer para nós outros é um processo lento, talvez da vida toda.