O Esconderijo

O Esconderijo — uma reflexão sobre medo, descanso e a vida escondida com Cristo em Deus

Eles estavam nus.

E não sentiam vergonha.

Não havia o que esconder.
Não havia necessidade de parecer alguma coisa.
Não havia medo de ser visto.

Então alguma coisa mudou.

Perceberam que estavam nus.
Fizeram para si coberturas.
Depois ouviram a voz do Senhor.
E se esconderam.

Quando o Senhor chamou o homem, veio uma resposta:

“Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi.”

Talvez essas palavras mereçam ser ouvidas devagar.

Medo.
Nudez.
Esconder-se.

O homem que estava nu e não sentia vergonha agora continua nu, mas tem medo de ser visto.

Então procura uma cobertura.
E procura um esconderijo.

Mas Deus pergunta:

“Onde você está?”

Não parece ser apenas uma pergunta sobre localização.

O homem estava ali.
Escondido entre as árvores.

Talvez a pergunta atravesse toda a história humana:

Onde você está?


Nus diante dele

Desde então aprendemos muitas maneiras de nos cobrir.

Não apenas com roupas.

Podemos nos cobrir com conhecimento.
Com religião.
Com boas obras.
Com reputação.
Com explicações.
Com aquilo que os outros pensam a nosso respeito.
E até com aquilo que pensamos a respeito de nós mesmos.

Construímos cuidadosamente a pessoa que queremos apresentar.

Mas há uma dificuldade:

diante de Deus continuamos nus.

Está escrito que nada em toda a criação está oculto aos seus olhos.

Tudo está descoberto.
Tudo está exposto.

Talvez a questão, portanto, nunca tenha sido conseguir esconder alguma coisa de Deus.

Talvez seja perder o medo de ser visto por ele.


Sem condenação

E por que alguém deixaria o esconderijo?

Talvez somente quando já não tiver medo daquele que o procura.

Está escrito:

“Agora, pois, já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.”

Isso muda tudo.

Porque aquele que me procura não está procurando alguém que conseguiu tornar-se apresentável.

Ele veio buscar:

o perdido.

Talvez possamos nos apresentar diante dele justamente assim.

Sem argumento.
Sem defesa.
Sem folhas.
Sem personagem.

Como uma criança.

Jesus disse que quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele.

Uma criança pode ainda não ter aprendido todas as nossas maneiras de esconder-se.

Ela simplesmente vem.


Outro esconderijo

Mas então acontece algo surpreendente.

A Escritura não nos deixa sem esconderijo.

Ela nos apresenta outro esconderijo.

O salmista diz:

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente…”

Agora alguém continua escondido.

Mas tudo mudou.

Antes, o homem se escondia de Deus.
Agora ele se esconde em Deus.

Antes havia medo.
Agora há descanso.

Antes as árvores eram usadas para impedir que Deus o visse.
Agora o próprio Altíssimo é o esconderijo.

Talvez nunca tenhamos sido chamados a viver sem abrigo.

Talvez estivéssemos apenas procurando abrigo no lugar errado.


Escondidos com Cristo

Paulo leva essa imagem ainda mais longe:

“Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus.”

Não é apenas:

escondam-se em Deus.

É:

a vida de vocês está escondida com Cristo em Deus.

Talvez seja difícil imaginar segurança maior.

Com Cristo.
Em Deus.

Então podemos compreender uma coisa aparentemente contraditória:

podemos estar completamente nus diante de Deus e completamente escondidos em Deus.

Nus, porque nada precisamos esconder.
Escondidos, porque nele encontramos abrigo.

Conhecidos, mas não condenados.
Encontrados, embora estivéssemos perdidos.


Onde você está?

Talvez a pergunta do jardim continue ecoando:

“Onde você está?”

Não:

O que você fez?
Como você conseguiu chegar aí?
Por que você não é melhor?

Mas:

Onde você está?

Talvez ainda estejamos atrás das árvores.
Talvez ainda estejamos costurando folhas.
Talvez ainda estejamos tentando construir uma versão de nós mesmos que possa comparecer diante dele.

Mas aquele que procura o perdido continua chamando.

E talvez possamos finalmente sair.

Não porque conseguimos nos cobrir suficientemente bem.

Mas porque descobrimos que não precisamos mais nos esconder dele.

Há outro esconderijo.

“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…”

E ali acontece algo que não acontecia entre as árvores do jardim.

Ali podemos descansar.


Talvez o caminho seja simplesmente este:

de esconder-se de Deus
para esconder-se em Deus.

Do medo ao descanso.
Da vergonha à confiança.
Das folhas ao abrigo.
De estar perdido a ser encontrado.

E então podemos permanecer diante dele sem medo.

Nus, mas não expostos.
Conhecidos, mas não condenados.
Escondidos, mas não perdidos.

Porque nossa vida está:

escondida com Cristo em Deus.

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