O Prazer Sexual

homem e mulher nus, de costas, sentados na mata

Como se chama o ponto culminante do prazer sexual?

Orgasmo.

Esse é o nome mais preciso.

Mas, na linguagem comum, usamos outra palavra:

gozo.

Dizemos que alguém gozou. Que chegou ao gozo.

E talvez possamos começar justamente por essa palavra.


Gozo

Gozo não é uma palavra sexual.

Gozo é alegria. Deleite. Satisfação. Uma experiência profunda de prazer.

O uso da palavra foi se estreitando de tal maneira que, hoje, em muitos contextos, basta dizer “gozar” para que imediatamente se pense no prazer sexual.

Mas Jesus contou uma história em que um senhor recebe seu servo e lhe diz:

“Entra no gozo do teu senhor.”

No texto grego, a palavra é chará: alegria.

Entra na alegria do teu senhor.

É interessante.

Na linguagem sexual, o gozo tornou-se um ponto ao qual se chega.
Chegou ao gozo.
Alguns segundos de enorme intensidade — e passou.

Na fala de Jesus, porém, o gozo é alguma coisa na qual se entra.

Não é apenas um instante.
É uma realidade.

Talvez tenhamos estreitado uma palavra muito grande.


Conhecer

Há outra expressão antiga e conhecida nas Escrituras:

“Adão conheceu Eva, sua mulher.”

Conheceu.

A palavra não é possuir.
Não é consumir.
É conhecer.

Nossa linguagem cotidiana, porém, encontrou outras maneiras de falar da relação sexual.

Ele a possuiu.
Ele a comeu.
Ela deu para ele.
Ela se entregou para ele.

Não é necessário condenar nenhuma dessas expressões nem aqueles que as utilizam.

A questão aqui é outra:

o que as palavras estão dizendo?

Possuir fala de posse.
Comer fala de consumo.
Dar estabelece alguém que dá e alguém que recebe.
Entregar-se pode falar de confiança e intimidade, mas também pode carregar a ideia de alguém que se entrega a outro.

Agora experimente mudar apenas uma pequena coisa:

Eles se conheceram.
Eles se entregaram um ao outro.

A reciprocidade muda a imagem.

Ninguém possui.
Ninguém é possuído.
Ninguém consome.
Ninguém é consumido.

Há encontro.


A língua

Tiago usa uma imagem extraordinária.

Um cavalo é grande, mas um pequeno freio colocado em sua boca permite dirigir todo o seu corpo.

Um navio é enorme e pode ser empurrado por ventos fortes, mas um pequeno leme determina sua direção.

Então Tiago fala da língua.

Pequena.
Mas capaz de dirigir coisas muito maiores do que ela.

Talvez a língua não esteja apenas contando aquilo que fazemos.

Talvez ela também participe da maneira como aprendemos a perceber aquilo que fazemos.

Se chamamos continuamente uma experiência de posse, podemos começar a percebê-la como posse.

Se a chamamos de consumo, podemos começar a experimentá-la como consumo.

Se chamamos o ponto culminante do prazer de gozo, talvez pouco a pouco o corpo aprenda que gozar significa chegar àquele instante.

A língua é pequena.
Mas o leme também é.


Eu amo você

Há uma frase muito simples que, curiosamente, pode causar constrangimento:

Eu amo você.

Dependendo de quem fala e de quem ouve, imediatamente aparecem outras perguntas.

O que ele quis dizer?
Existe interesse?
Existe desejo?
É uma declaração romântica?
É sexual?

Duas pessoas podem ter enorme carinho uma pela outra e, ainda assim, encontrar dificuldade para simplesmente dizer:

Eu amo você.

Talvez tenhamos estreitado também essa palavra.

Amor.

E, no entanto, quando Jesus deixa aos seus discípulos um novo mandamento, ele diz:

“Amem uns aos outros. Assim como eu os amei, vocês devem amar uns aos outros.”

E acrescenta que seria justamente por esse amor que seriam reconhecidos.

Não por uma palavra secreta.
Não por uma explicação complicada.
Pelo amor.

Curiosamente, podemos dizer sem constrangimento:

“Devemos amar o próximo.”

É uma frase religiosa conhecida.

Mas talvez seja muito diferente olhar nos olhos de alguém e dizer:

Eu amo você.

O primeiro pode permanecer como conceito.
O segundo toca o corpo.

A voz fala.
Os olhos olham.
Os braços podem abraçar.
As mãos podem cuidar.

O amor se torna carne.


Palavras grandes

Talvez tenhamos estreitado palavras grandes demais.

Gozo.
Conhecer.
Intimidade.
Entrega.
Amor.

E talvez isso não aconteça apenas com a sexualidade.

Pode acontecer também com a religião.


Vida e morte

Chamamos de vivo aquele cujo coração bate e que respira.

Chamamos de morto aquele cujo corpo deixou de viver.

Isso é perfeitamente compreensível.

Mas as Escrituras utilizam essas palavras de maneira muito mais ampla.

Um pai recebe o filho que retornou para casa e diz:

“Este meu filho estava morto e reviveu.”

O filho não havia morrido biologicamente.

Jesus diz a alguém:

“Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos.”

Mortos sepultando mortos.

E encontramos também a afirmação de que alguém pode passar da morte para a vida enquanto continua biologicamente no mesmo corpo.

Então surge uma pergunta desconcertante:

O que estamos chamando de vida?

E o que estamos chamando de morte?


Vida eterna

A prática religiosa frequentemente deslocou uma grande parte da ideia de vida eterna para aquilo que acontecerá depois da morte.

Morre-se aqui.
Depois, espera-se viver eternamente.

Mas há uma frase de Jesus que merece ser ouvida muito devagar.

Jesus levanta os olhos e fala ao Pai:

“E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”

Talvez seja melhor não explicar depressa.

Primeiro, ouvir.

“A vida eterna é esta…”

E o que vem depois?

Conhecer.

Outra vez:
conhecer.

A mesma palavra que encontramos quando começamos a falar da união entre duas pessoas reaparece agora diante de algo incomparavelmente maior.

Vida eterna é apresentada em termos de conhecimento.
De relação.

E há ainda outra coisa que merece ser simplesmente ouvida.

Quem está falando é Jesus.

Mas ele não diz:

“que conheçam a ti… e a mim, a quem enviaste.”

Está escrito:

“e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”

Jesus fala.
Jesus fala ao Pai.
E fala de:
Jesus Cristo.

O que isso significa?

Não é necessário correr.

Nosso objetivo aqui não é encontrar uma resposta.

É iluminar o caminho.


Sem condenação

Talvez, ao perceber essas coisas, surja outra tentação: olhar para trás e começar a julgar.

Julgar nossa linguagem.
Julgar nossa sexualidade.
Julgar a religião.
Julgar aqueles que ensinaram antes de nós.
Julgar a nós mesmos.

Mas também está escrito:

“Agora, pois, já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus.”

Portanto, esta reflexão não é uma acusação.

É um convite para olhar.

Talvez tenhamos chamado algumas coisas por nomes pequenos demais.
Talvez tenhamos trocado algumas palavras sem perceber.
Talvez tenhamos repetido expressões durante tanto tempo que já não conseguimos ouvir exatamente aquilo que está sendo dito.

Não há necessidade de condenação.

Há luz.

E quando a luz aumenta, começamos simplesmente a enxergar aquilo que antes não enxergávamos.


Em enigma

Paulo escreveu:

“Agora vemos por meio de um espelho, em enigma.”

A palavra utilizada é aínigma.

Enigma.

E logo depois ele reconhece:

“Agora conheço em parte.”

Talvez haja grande descanso nisso.

Não conhecemos tudo.
Não enxergamos tudo.
E não é necessário fingir que enxergamos.

Um enigma pede atenção.
Um caminho pede luz.

E talvez a questão não seja resolver tudo antes de começar a andar.

Talvez seja permitir que a luz alcance o próximo passo.


Começamos falando de prazer sexual

Falamos de orgasmo.
Descobrimos o gozo.
Do gozo chegamos ao conhecer.
Do conhecer, à língua.
Da língua, ao amor.
Do amor, à vida.
E da vida chegamos novamente ao conhecer.

Talvez não seja por acaso.

Talvez algumas palavras sejam grandes demais para serem aprisionadas em um único significado.

E talvez possamos reaprender a ouvi-las.

Gozo.
Conhecer.
Amar.
Vida.

Sem pressa de explicar.
Sem condenação.
Sem medo.

Apenas deixando a luz entrar.

Porque talvez não estejamos procurando uma resposta.

Talvez estejamos apenas iluminando o caminho.

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