Quando conversamos sobre política, filosofia ou qualquer outro assunto, é muito fácil chegarmos a um ponto em que cada um assume uma posição e começa a defendê-la.
No terreno do sagrado, isso pode acontecer ainda mais facilmente.
Porque já não estamos apenas defendendo uma opinião. Podemos começar a acreditar que estamos defendendo a verdade, as Escrituras ou até mesmo Deus.
Mas Deus precisa ser defendido?
Talvez possamos fazer uma coisa mais simples: ouvir.
As próprias Escrituras nos ensinam alguma cautela.
Vemos como em espelho, obscuramente.
Somos convidados a ser prontos para ouvir e tardios para falar.
E Jesus repetia:
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Talvez reconhecer que ainda vemos obscuramente não diminua aquilo que já conseguimos enxergar. Apenas nos lembra de que podemos não estar vendo tudo.
O outro pode ter percebido alguma coisa que ainda não percebemos.
Até diferentes traduções podem nos ajudar nisso.
Às vezes uma tradução diz de uma maneira e outra escolhe palavras diferentes. Não precisamos imediatamente fazer uma delas vencer. Podemos colocá-las lado a lado e perguntar:
O que conseguimos enxergar melhor quando ouvimos as duas?
E a própria Bíblia algumas vezes registra uma mesma fala de maneiras diferentes.
Mateus conta Jesus dizendo que, se nós, sendo maus, sabemos dar boas coisas aos nossos filhos, quanto mais o Pai dará coisas boas aos que lhe pedirem.
Lucas registra a mesma comparação, mas termina dizendo que o Pai dará o Espírito Santo aos que lhe pedirem.
Precisamos colocar Mateus contra Lucas?
Ou podemos simplesmente ouvir os dois?
Há uma cena ainda mais surpreendente.
No deserto, Jesus responde ao tentador:
Está escrito.
O tentador também conhece as Escrituras. Ele cita o Salmo:
Porque está escrito…
Ter um texto bíblico, portanto, não encerra necessariamente a conversa.
E então Lucas registra uma pequena mudança na resposta de Jesus:
Dito está.
Está escrito.
Dito está.
Talvez exista aí uma diferença preciosa para quem se aproxima das Escrituras.
Não basta apenas perguntar:
O que está escrito?
Podemos também perguntar:
O que está sendo dito?
Porque a Palavra de Deus é viva e eficaz.
E Paulo nos lembra que a letra mata, mas o Espírito vivifica.
Isso não significa que todas as interpretações sejam iguais.
Também não significa que não existam verdade e erro.
Significa apenas que talvez não precisemos decidir tudo imediatamente.
Podemos permanecer algum tempo diante do texto.
Podemos ouvir uma tradução.
Ouvir outra.
Ouvir Mateus.
Ouvir Lucas.
Ouvir quem está sentado ao nosso lado.
E, quando alguém enxergar de maneira diferente, antes de responder, talvez possamos perguntar:
Paulo chega a aconselhar Tito a evitar controvérsias, discussões e contendas, porque são “inúteis e sem valor”.
Talvez a pergunta não seja apenas se temos razão, mas o que nossa discussão está produzindo.
O que você ouviu?
Talvez nosso encontro não precise ser um lugar onde descobrimos quem está certo.
Pode ser um lugar onde aprendemos juntos a ouvir.
Sem trincheiras.
Sem necessidade de defender Deus.
Sem pressa para transformar aquilo que ainda vemos obscuramente em uma definição definitiva.
Apenas com a disposição de quem reconhece:
a Palavra é viva.
Por isso, continuamos ouvindo.
1 Comment
A Palavra é viva e eficaz. Cada dia que passa, meditando na Palavra, eu tenho conseguido entender um.pouco mais a respeito de Cristo.