Há algumas semanas comecei uma experiência muito simples: retirar de algumas cartas do Novo Testamento a numeração dos capítulos e dos versículos, os títulos e os subtítulos e voltar a lê-las como aquilo que originalmente eram — cartas.
Preparei primeiro a carta de Paulo aos Colossenses em leitura contínua. Separei apenas pequenos blocos onde a própria mensagem parecia pedir uma pausa, preservando os conectivos e procurando não interferir no fluxo do texto.
A diferença na leitura foi muito maior do que eu esperava.
Ontem, na igreja, eu lia essa carta com as crianças. Bem devagar. Uma frase de cada vez. Procurávamos entender quem estava falando, de quem Paulo estava falando e como uma frase se ligava à seguinte.
Em determinado momento chegamos a estas palavras:
o mistério que esteve oculto durante épocas e gerações, mas que agora foi manifestado a seus santos. A ele quis Deus dar a conhecer entre os gentios a gloriosa riqueza deste mistério, que é Cristo em vocês, a esperança da glória.
A ele?
Quem era “ele”?
Paramos.
E então percebemos algo muito pequeno: aquele “A ele” estava assim na própria Bíblia que estávamos lendo. Não era um erro na carta contínua que havíamos preparado. Havia ali uma pequena falha de tradução ou de edição: o sentido pedia o plural — aos santos, a eles, aos quais Deus quis dar a conhecer a riqueza daquele mistério.
Era apenas um pequeno “s”.
Mas aquele pequeno “s” ausente me fez perceber uma coisa: ele havia me incomodado porque estava atrapalhando o que eu estava ouvindo.
Eu não estava apenas lendo palavras. Estava procurando acompanhar uma mensagem.
E, quando fazemos isso, até uma pequena palavra fora do lugar interrompe o fio.
Continuamos.
Pouco antes, Paulo havia falado da esperança:
a respeito da qual vocês ouviram por meio da palavra da verdade, o evangelho que chegou até vocês.
Mais adiante, falando de sua responsabilidade, Paulo diz:
apresentar-lhes plenamente a palavra de Deus, o mistério que esteve oculto durante épocas e gerações…
E finalmente:
Cristo em vocês, a esperança da glória.
Parei novamente.
A conexão estava diante dos nossos olhos:
a palavra da verdade — o evangelho.
a palavra de Deus — o mistério.
o mistério — Cristo em vocês.
Então outras palavras das Escrituras começaram a voltar à minha memória.
No princípio:
Disse Deus: Haja luz.
E houve luz.
Deus fala e aquilo que não existia vem à existência.
João volta exatamente ao princípio:
No princípio era a Palavra.
E diz que todas as coisas foram feitas por intermédio dela.
Jesus, ao explicar a parábola do semeador, diz algo muito simples:
A semente é a palavra de Deus.
Semente.
Não apenas informação.
Semente contém vida.
Tiago diz:
acolham humildemente a palavra implantada em vocês.
Pouco antes, ele havia dito que Deus:
nos gerou pela palavra da verdade.
A mesma expressão que encontramos em Colossenses:
a palavra da verdade, o evangelho.
Então me lembrei de Hebreus:
a palavra de Deus é viva e eficaz.
Viva.
Eficaz. Operante.
Como uma semente.
E então uma frase de Jesus que conheço há muitos anos apareceu diante de mim de uma maneira que eu nunca havia compreendido assim:
O Espírito dá vida; a carne não produz nada que se aproveite. As palavras que eu lhes disse são espírito e vida.
Foi quando outra frase de Paulo ganhou uma força nova para mim:
a letra mata, mas o Espírito vivifica.
Paulo não diz que a letra é morta.
Diz que a letra mata.
Isso me fez lembrar do deserto.
Ali, o próprio diabo diz a Jesus:
Está escrito…
Jesus responde:
Está escrito…
O diabo volta às Escrituras:
Está escrito…
Ele também conhece a letra. Também sabe citar as Escrituras.
E, se aquela conversa permanecesse apenas nesse terreno, poderíamos imaginá-la continuando indefinidamente:
Está escrito…
Também está escrito…
Mas está escrito…
Até que, na última resposta registrada por Lucas, Jesus muda a expressão:
Dito está…
E o diálogo termina.
Não quero construir uma doutrina sobre a diferença entre “Está escrito” e “Dito está”. Aquilo que Jesus diz também vem das Escrituras.
Mas a imagem me impressiona.
Jesus não permanece numa interminável disputa de citações.
Dito está.
E encerra.
Isso significa que conhecer aquilo que está escrito, citar aquilo que está escrito e até discutir aquilo que está escrito não significa necessariamente ouvir a Palavra de Deus.
Podemos conhecer a letra.
Podemos memorizar a letra.
Podemos ensinar a letra.
Podemos discutir a letra.
E podemos passar a vida inteira dizendo:
Está escrito.
Enquanto outra pessoa responde:
Também está escrito.
Talvez por isso Jesus dissesse tantas vezes:
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.
Então me lembrei de outra frase:
a fé vem pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Cristo.
Talvez eu tenha começado a compreender um pouco melhor por que essa experiência de leitura contínua tem sido tão poderosa.
Não porque retiramos os números dos capítulos e dos versículos.
Não porque descobrimos uma técnica nova.
Muito menos porque encontramos uma maneira “correta” de ler a Bíblia.
Talvez simplesmente tenhamos começado a ouvir.
Quando lemos uma carta inteira, os conectivos voltam a importar.
Um “portanto” importa.
Um “pois” importa.
Um “ele” importa.
Até um pequeno “s” ausente incomoda.
Porque alguma coisa interrompe aquilo que estávamos ouvindo.
E foi assim que, sentado com algumas crianças, lendo vagarosamente uma carta escrita há quase dois mil anos, compreendi de maneira nova palavras que conhecia havia muito tempo.
Eu estava ali para ajudá-las a compreender.
E fui eu quem ouvi.
Talvez exista uma diferença enorme entre ensinar uma criança a Bíblia e sentar-se com uma criança diante das Escrituras para ouvir.
Na primeira situação, eu já sei e vou transmitir.
Na segunda, nós dois ouvimos.
E isso preserva algo precioso: quem ensina também permanece debaixo da Palavra.
Foi exatamente o que aconteceu naquela leitura.
Eu não estava procurando aquela descoberta. Não havia preparado uma explicação sobre a Palavra de Deus, o evangelho, a semente, o Espírito e a vida.
As conexões foram aparecendo enquanto líamos.
Naquele momento, talvez não houvesse propriamente um professor e algumas crianças aprendendo.
Havia pessoas diante da mesma Palavra, ouvindo.
E isso me fez perceber uma diferença muito simples entre duas frases que usamos quase sem pensar:
“Vamos estudar a Palavra de Deus.”
e
“Vamos ouvir.”
Estudar não é ruim. O problema talvez comece quando o estudo ocupa o lugar da escuta.
Quando digo “vamos estudar”, é muito fácil chegar ao texto trazendo aquilo que já sei, aquilo que aprendi, as explicações que recebi, as doutrinas que conheço e até as respostas que espero encontrar.
Mas quando digo simplesmente:
“Vamos ouvir”,
alguma coisa muda.
Eu também preciso me calar.
Eu também não sei antecipadamente o que vou perceber.
Eu também permaneço diante da Palavra.
E fica aberto o espaço para acontecer aquilo que aconteceu comigo naquela noite:
“Eu nunca tinha compreendido assim.”
Talvez exista uma diferença muito maior do que imaginamos entre conhecer as Escrituras e ouvir a Palavra.
Não quero transformar isso em outro método.
Muito menos em uma nova doutrina sobre ler a Bíblia em voz alta.
Seria até engraçado.
Em pouco tempo estaríamos novamente discutindo:
Está escrito…
Talvez seja melhor terminar apenas como Jesus tantas vezes terminava.
Ele não dizia:
“Quem tem inteligência para compreender, compreenda.”
Dizia:
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
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A cada dia sua preocupação, a cada momento onde podemos ouvir com nossa alma a palavra é revelação, a cada texto um novo aprendizado.amem