Verdadeiramente, tu és um Deus que se esconde
Há coisas que lemos tantas vezes que já não percebemos exatamente o que está escrito.
Antes mesmo de terminarmos uma frase, nossa mente já a completou com aquilo que aprendemos sobre ela.
Isso acontece também quando lemos a Bíblia.
Durante séculos, homens e mulheres buscaram compreender as Escrituras, organizaram aquilo que compreenderam e transmitiram esse entendimento às gerações seguintes. Há muito pelo que podemos ser gratos.
Mas existe uma pergunta que talvez talvez seja melhor fazer:
Será que ainda conseguimos ler algumas palavras como se as estivéssemos ouvindo pela primeira vez?
Não para rejeitar aquilo que aprendemos.
Não para construir uma nova doutrina.
Não para provar que alguém estava errado.
Apenas para ouvir.
Verdadeiramente, tu és um Deus que se esconde.
E esse mesmo Deus diz:
Vocês me buscarão e me acharão quando me buscarem de todo o coração. Eu me deixarei ser encontrado por vocês.
Talvez exista aqui algo importante para o caminho que queremos começar.
Deus se esconde.
Mas Deus se deixa encontrar.
Um mistério, não um enigma
Paulo fala repetidamente de um mistério.
E talvez tenhamos transformado mistério em algo parecido com um enigma: alguma coisa que precisa ser solucionada intelectualmente.
Mas um enigma, quando solucionado, deixa de ser enigma.
Um mistério pode ser revelado e continuar sendo mistério.
Paulo chega a dizer qual é o mistério:
Cristo em vocês, a esperança da glória.
E, mesmo depois de dizer isso, continua trabalhando, escrevendo, explicando, orando e lutando para que seus irmãos alcancem a plena compreensão.
Como se as palavras fossem pequenas demais para aquilo que ele estava se esforçando para mostrar.
E diz ainda:
Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.
Escondidos.
Talvez não seja por acaso que também diga:
A vida de vocês está escondida com Cristo em Deus.
O salmista havia dito:
Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo…
Há alguma coisa aqui que queremos contemplar sem pressa.
Não para resolver o mistério.
Mas para buscá-lo.
Voltemos ao princípio
Talvez tenhamos começado muitas vezes pelo meio.
Por isso, desta vez, queremos voltar ao princípio.
No princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra estava sem forma e vazia.
Havia trevas sobre a face do abismo.
E o Espírito de Deus pairava sobre as águas.
Então:
Deus disse: Haja luz; e houve luz.
É uma cena extraordinariamente simples.
Deus.
O Espírito de Deus.
A Palavra de Deus.
Trevas.
Luz.
E há um detalhe que merece nossa atenção:
ainda não existiam os luminares.
O sol, a lua e as estrelas somente aparecerão depois no relato.
A primeira luz da Bíblia, portanto, não depende do sol.
Deus fala:
Haja luz.
E há luz.
No princípio era o Verbo, a Palavra
Muito tempo depois, outro texto começa de maneira surpreendentemente semelhante:
No princípio era o Verbo ou a Palavra…
João não começa dizendo:
No princípio era Jesus.
Ele escreve:
o Verbo.
E continua:
Todas as coisas foram feitas por intermédio dele.
Depois:
Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens.
Verbo… Palavra
Vida.
Luz.
E novamente:
A luz resplandece nas trevas.
Somente depois João dirá:
O Verbo se fez carne.
Talvez tenhamos lido essas palavras tantas vezes que já sabemos o que devemos pensar antes mesmo de ouvi-las.
Por isso, desta vez, não queremos explicar depressa demais.
Queremos apenas perguntar: o que João está querendo nos mostrar?
E quem é esse Cristo?
Paulo também nos leva ao princípio.
Ao falar do Filho, ele diz que:
nele foram criadas todas as coisas
e que:
tudo foi criado por meio dele e para ele.
Diz ainda que ele é antes de todas as coisas e que nele tudo subsiste.
Mas Paulo diz outra coisa que talvez seja ainda mais desconcertante:
Cristo em vocês.
E, em outra carta:
até que Cristo seja formado em vocês.
Quem é esse Cristo?
Talvez a pergunta pareça simples porque aprendemos desde muito cedo a ler Jesus, Cristo, Jesus Cristo e Cristo Jesus praticamente como um único nome.
Mas e se, durante algum tempo, simplesmente respeitássemos as palavras escolhidas pelos autores?
Quando estiver escrito Jesus, leremos Jesus.
Quando estiver escrito Cristo, leremos Cristo.
Quando estiver escrito Jesus Cristo, leremos Jesus Cristo.
Quando estiver escrito Cristo Jesus, leremos Cristo Jesus.
Quando estiver escrito Filho, leremos Filho.
Quando João escrever Verbo, deixaremos Verbo.
E quando escrever luz, deixaremos luz.
Não porque já saibamos que há necessariamente uma diferença em cada uma dessas expressões.
Mas justamente porque ainda queremos descobrir.
O Deus que disse: Haja luz
Há, porém, uma passagem de Paulo que não podemos ignorar.
Ele fala da:
luz do evangelho da glória de Cristo.
E então volta diretamente à primeira página da Bíblia:
Deus, que disse: Das trevas resplandeça a luz…
Mas Paulo não está simplesmente recordando a criação.
Ele diz que esse mesmo Deus:
brilhou em nosso coração
para produzir a iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.
O “Haja luz” reaparece.
Mas agora…
dentro do homem.
Talvez seja cedo demais para dizer tudo o que isso significa.
E talvez seja exatamente aí que começa o mistério.
Do “Haja luz” ao “Já não haverá noite”
Talvez seja interessante, antes de prosseguirmos, olhar por um instante para a outra extremidade da Bíblia.
Começamos em Gênesis:
Haja luz.
Uma luz que aparece antes dos luminares.
Mas quando chegamos às últimas páginas das Escrituras, encontramos novamente algo surpreendente.
A cidade não necessita do sol nem da lua para iluminá-la:
A glória de Deus a ilumina, e o Cordeiro é a sua lâmpada.
E pouco depois:
Já não haverá noite.
Não precisarão da luz de uma candeia.
Nem da luz do sol.
Pois o Senhor Deus os iluminará.
A Bíblia começa com:
trevas sobre a face do abismo.
Então:
Haja luz.
E termina com:
Já não haverá noite.
Talvez não devamos explicar depressa demais essa correspondência.
Mas também talvez não devamos passar por ela sem percebê-la.
No princípio, uma luz que não depende do sol.
No final, uma luz que novamente não depende do sol.
E entre essas duas extremidades:
A luz resplandece nas trevas.
Eu sou a luz do mundo.
Vocês são a luz do mundo.
Agora vocês são luz no Senhor.
Andem enquanto vocês têm a luz.
Quem ama seu irmão permanece na luz.
Deus… brilhou em nosso coração.
Há um caminho atravessando as Escrituras.
Das trevas para a luz.
Do:
Haja luz
ao:
Já não haverá noite.
E talvez haja ainda uma delicadeza na própria palavra que dá nome ao último livro da Bíblia.
Apocalipse significa revelação, desvelamento.
Aquilo que estava escondido é descoberto.
Aquilo que não víamos começa a ser visto.
Talvez isso tenha alguma relação com o mistério do qual Paulo tanto fala:
um mistério que esteve escondido durante gerações e que agora foi manifestado.
E, no centro desse mistério:
Cristo em vocês, a esperança da glória.
Ainda não queremos concluir.
Queremos apenas guardar diante de nós estas duas frases:
Haja luz.
Já não haverá noite.
E perguntar:
O que aconteceu entre uma e outra?
Como queremos caminhar
Esta reflexão não começa com uma conclusão.
Começa com uma busca.
Não queremos provar que uma compreensão antiga está errada.
Também não queremos substituí-la rapidamente por uma compreensão nova.
Queremos fazer algo talvez mais difícil:
ouvir novamente.
Talvez precisemos deixar algumas respostas em silêncio durante algum tempo.
Voltar a Gênesis.
Ouvir João.
Ouvir Paulo.
Observar cuidadosamente as palavras.
E permitir que uma passagem ilumine a outra.
Porque aquele em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento também disse:
Busquem, e encontrarão.
E o Deus que se esconde prometeu:
Eu me deixarei ser encontrado por vocês.
Por isso, talvez a melhor maneira de começar não seja com uma afirmação.
Mas com algumas perguntas:
Quem é o Verbo que estava no princípio?
Que luz é essa que resplandece antes mesmo dos luminares?
Por que João diz que no Verbo estava a vida, e que essa vida era a luz dos homens?
O que aconteceu quando o Verbo se fez carne?
O que Pedro reconheceu quando olhou para Jesus e disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”?
E o que Paulo está procurando nos fazer compreender quando diz: “Cristo em vocês”?
Não precisamos responder depressa.
Talvez, por enquanto, baste fazer aquilo que Jesus repetiu tantas vezes:
Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.


1 Comment
A última frase é o X da questão se é que posso falar assim. Que ouvidos são esses? Pois esse que usamos para escutar talvez não sirva para ouvir.