Um coração de Pai

Uma videira com um novo ramo

Este texto nasceu de uma caminhada pelas Escrituras.

Não da tentativa de reunir versículos diferentes para construir uma mensagem, mas da percepção de que passagens escritas em tempos, circunstâncias e livros diferentes parecem revelar partes de uma mesma mensagem, profundamente conectadas entre si.

Uma palavra iluminou outra. Um texto abriu o seguinte.

E o caminho começou com uma pequena frase de Paulo:

“Deus nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo.”

Todas.

A afirmação de Paulo é surpreendente. Ele não diz que Deus ainda nos abençoará. Diz que já nos abençoou. E não com algumas bênçãos espirituais, mas com todas.

E acrescenta onde elas estão:

em Cristo.

Talvez por isso, pouco depois, Paulo ore para que os olhos do nosso coração sejam iluminados.

Não necessariamente para recebermos alguma coisa que ainda esteja faltando.

Mas para enxergarmos.

Porque há um tesouro escondido.


O tesouro

Jesus disse que o Reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. Um homem o encontrou e, cheio de alegria, vendeu tudo o que tinha para comprar aquele campo.

Primeiro ele encontrou.

Depois vendeu tudo.

Isso faz toda a diferença.

Ele não abriu mão de tudo esperando encontrar um tesouro.
Ele abriu mão de tudo porque havia encontrado o tesouro.

E Paulo parece nos mostrar onde estão escondidos os tesouros:

“Em Cristo estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.”

Novamente:

todos.

Todas as bênçãos espirituais estão em Cristo.

Todos os tesouros estão escondidos em Cristo.

Talvez o problema, então, não seja a ausência do tesouro.

Talvez seja não enxergá-lo.

“Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça.”

“Provem e vejam que o Senhor é bom.”

“Transformem-se pela renovação da mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”

Ouvir.
Provar.
Ver.
Experimentar.
Comprovar.

Não apenas saber a respeito de Deus.

Conhecê-lo.


Tudo

Foi nesse caminho que uma antiga frase ganhou outra dimensão:

“Tragam o dízimo todo ao depósito do templo, para que haja alimento em minha casa. Ponham-me à prova […] e vejam…”

Em Malaquias, eram dízimos reais, alimento real, uma casa real. Não precisamos transformar o texto em outra coisa.

Mas, quando chegamos ao Novo Testamento, algo extraordinário acontece.

A oferta deixa de aparecer apenas como uma parte dos nossos bens:

“Ofereçam os seus corpos como sacrifício vivo.”

Ofereçam-se.

Uma viúva colocou duas pequenas moedas no gasofilácio.

Para os outros, quase nada.

Para Jesus:

ela deu tudo.

O homem encontrou o tesouro e vendeu tudo.

A viúva deu tudo.

Paulo diz: ofereçam-se.

Talvez a grande questão nunca tenha sido dez por cento.

Onde está o seu tesouro?

Porque onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.


O problema do coração

E foi justamente o coração que nos levou à parte mais profunda dessa busca.

Desde o princípio, o problema humano estava nele:

“toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era sempre e somente para o mal”.

Como resolver isso?

Mais mandamentos?

Mais proibições?

Mais esforço?

Mais rigor?

A resposta anunciada por Deus é surpreendentemente diferente:

“Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês.”

E mais:

“Porei o meu Espírito em vocês.”

Deus não promete simplesmente ensinar o velho coração a comportar-se melhor.
Ele dá um coração novo.

Mas como?


O Filho em nós

Aqui uma pequena expressão de Paulo talvez ilumine todo o caminho.

Ao contar o que Deus havia feito nele, Paulo escreve que Deus se agradou de:

“revelar seu Filho em mim”.

E quem é o Filho?

Pedro havia respondido diante de Jesus:

“Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.”

Portanto, a linguagem começa a se encontrar:

o Filho revelado em mim.
Cristo em mim.

E o próprio Paulo desenvolve isso na mesma carta:

“Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.”

E depois:

“até que Cristo seja formado em vocês.”

Colossenses resume o mistério:

“Cristo em vocês, a esperança da glória.”

Talvez tenhamos chegado ao tesouro.

Não são simplesmente coisas que Cristo nos oferece.

A vida está no Filho.

“Deus nos deu a vida eterna, e essa vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida.”

A resposta ao coração inclinado para a maldade não é simplesmente um conhecimento mais aperfeiçoado do bem e do mal.

É vida.

E a vida está no Filho.


A videira verdadeira

Jesus utiliza uma imagem extraordinariamente simples:

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor.”

E:

“Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo.”

O ramo não fabrica a vida.

Ele a recebe da videira.

Por isso Jesus pode dizer:

“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”

Um ramo separado pode receber regras, instruções, advertências e conhecimento sobre como deveria produzir uvas.

Mas não produzirá uvas.

Falta-lhe vida.

Quando permanece na videira, porém, o fruto aparece.

Talvez por isso Paulo não fale dos “frutos” do Espírito.

Ele diz:

“o fruto do Espírito”.

Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio não são produtos independentes fabricados pelo esforço humano.

São fruto da vida.


O coração do Filho

E aqui Gálatas nos entrega outra peça extraordinária:

“Porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: ‘Aba, Pai’.”

Agora o caminho começa a ficar completo.

Deus revela seu Filho em nós.

Cristo vive em nós.

Cristo é formado em nós.

O Espírito do Filho é enviado ao nosso coração.

E desse coração surge:

“Aba, Pai.”

Talvez a solução para o coração inclinado para a maldade seja ainda mais profunda do que imaginávamos.

Não é simplesmente receber um coração que tente imitar o Pai.

É Cristo sendo formado em nós.

Um coração de Filho.

E o Filho manifesta o Pai.

“Eu e o Pai somos um.”

“Quem me vê, vê o Pai.”

“O Filho não pode fazer nada de si mesmo; só pode fazer o que vê o Pai fazer.”

Jesus vive como Filho.

Ouve o Pai.

Vê o Pai.

Faz a vontade do Pai.

E manifesta o Pai.


Um coração de Pai

Agora podemos compreender de outra maneira:

“Sejam santos, porque eu sou santo.”

“Sejam misericordiosos, assim como o Pai de vocês é misericordioso.”

“Amem os seus inimigos.”

O padrão não é simplesmente uma legislação.

O padrão é o Pai.

Mas isso não começa com nosso esforço para imitá-lo.

Começa com o Pai trabalhando.

“Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando.”

E Paulo acrescenta:

“Pois é Deus quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar, de acordo com a boa vontade dele.”

Até o querer.

O Pai trabalha.

O Filho é revelado.

O Espírito habita.

Cristo é formado.

A vida produz fruto.

E o coração do Pai começa a aparecer nos filhos.

Talvez seja esse o tesouro que procurávamos.

Não simplesmente as coisas do Pai.

Não simplesmente as bênçãos do Pai.

A vida do Pai manifestada no Filho
e o Filho vivendo em nós.

Por isso:

“Tudo o que pertence ao Pai é meu.”

E:

“Quem tem o Filho tem a vida.”

A caça ao tesouro termina onde talvez nunca imaginássemos.

O que pode vencer um coração inclinado para a maldade?

Vida.

Onde está essa vida?

No Filho.

E o que acontece quando o Filho é revelado e formado em nós?

Surge um coração de Filho que conhece o Pai, ouve o Pai e pratica a vontade do Pai.

E, nesse filho, começa a tornar-se visível:

Um coração de Pai.

“Nós amamos porque ele nos amou primeiro.”

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2 Comments

  1. João Carlos de Carvalho disse:

    Como reage um pai humano diante do sofrimento do filho, quando a maldade é manifesta em minha vida, sou posto a prova, diante da dor da alma que de tão forte se torna também física, quando sou desprezado pelos que amo, sou posto a prova e conheço o amor de Deus pai, daí sou filho amado Dele e posso amar como Ele me ama, houveram dias que pensava que o sofrimento só ensinava a sofrer, hoje vejo que também ensina a conhecer o amor verdadeiro, divino, compassivo e misericordioso.

  2. João Carlos de Carvalho disse:

    O que faz um coração que perde, como reage ao confronto real, vivo, da maldade humana. Fizeram mal ao meu filho e o meu coração de pai humano sangra, mas o amor de Deus pai, abranda minha ira e me faz compassivo, mesmo todos os livros da bíblia de genesis ao Apocalipse, conseguem comunicar o amor misericordioso de Deus na sua plenitude quem nos mostra isso de maneira eficaz é o sofrimento, que nos apresenta a Ele o pai das mesericordias.

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