Paulo encontrou alguns discípulos e perguntou:
“Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?”
Talvez essa pergunta ainda mereça ser ouvida.
Não apenas para lembrar quando recebemos o Espírito Santo ou discutir como isso acontece.
Talvez seja melhor observar:
O que o Espírito Santo faz em nós?
E o que fazemos quando percebemos o seu agir?
Tiago fala do Espírito que Deus fez habitar em nós:
“É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós?”
É uma expressão forte.
Mas talvez não devamos compreender esse ciúme como posse.
Não é o ciúme de quem quer possuir.
É o zelo de quem cuida.
O Espírito anseia por nós.
Há cuidado.
Há graça.
Ele não permanece indiferente ao que acontece dentro de nós.
Paulo diz que, quando nem sabemos como orar, o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
E escreve também:
“A carne deseja o que é contrário ao Espírito, e o Espírito, o que é contrário à carne.”
E acrescenta:
“Para que vocês não façam o que querem.”
Há momentos em que queremos alguma coisa e encontramos dentro de nós uma oposição.
Queremos responder.
Queremos revidar.
Queremos defender nossa razão.
Queremos fazer imediatamente aquilo que pensamos ser melhor.
Mas há outro movimento acontecendo.
O Espírito age.
Talvez até essa oposição seja graça.
Paulo escreveu também:
“Não atrapalhem a ação do Espírito Santo.”
Outras traduções dizem:
“Não apaguem o Espírito.”
A imagem é forte.
Não somos nós que acendemos o fogo.
Mas podemos apagá-lo.
Talvez uma parte importante da caminhada seja aprender a reconhecer aquilo que o Espírito está fazendo em nós — e não atrapalhar.
Paulo faz um apelo:
“Apresentem o corpo de vocês como sacrifício vivo.”
E continua:
“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas sejam transformados pela renovação da mente.”
Eu me apresento.
Não me conformo.
E sou transformado.
Em outra carta, Paulo diz:
“Somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.”
A transformação acontece.
Mas não somos nós que a produzimos.
Tudo isso parece simples enquanto estamos lendo.
Até chegar a hora H.
Alguém nos ofende.
Somos contrariados.
Recebemos uma palavra injusta.
A mesma pessoa faz novamente aquilo que já havíamos perdoado.
Recebemos o mal.
E imediatamente aparece o nosso querer.
É justamente aí que podemos aprender a contemplar o agir do Espírito.
Na hora H.
Meu primeiro impulso diz uma coisa.
Mas há outro movimento acontecendo dentro de mim.
É nessa hora que palavras conhecidas começam a ganhar vida:
“Ofereça também a outra face.”
“Perdoe setenta vezes sete.”
“Não retribua a ninguém mal por mal.”
“Vença o mal com o bem.”
Enquanto ninguém nos faz mal, essas palavras podem permanecer apenas como ensinamentos.
Quando recebemos o mal, podemos experimentá-las.
A carta aos Hebreus diz: “A palavra de Deus é viva e eficaz.”
Ela penetra profundamente e discerne os pensamentos e as intenções do coração.
Talvez eu imaginasse que sabia perdoar.
Até precisar perdoar novamente.
Talvez imaginasse que não precisava defender minha razão.
Até ser acusado injustamente.
A situação revela o que existe dentro de mim.
Mas pode tornar-se também o lugar da transformação.
Tiago diz para considerarmos motivo de alegria quando passarmos por várias provações.
Porque a provação produz perseverança.
E a perseverança deve completar sua ação.
Paulo escreve algo muito parecido:
“A tribulação produz perseverança; a perseverança, experiência; e a experiência, esperança.”
E logo depois fala do amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito Santo.
Há um esforço.
Às vezes, um esforço enorme.
Mas não é o esforço de produzir nossa própria transformação.
É o esforço de permanecer.
De não seguir imediatamente o nosso querer.
De não apagar.
De não atrapalhar.
Então vem outra situação.
E outra.
E outra.
“De glória em glória” não significa literalmente “de situação em situação”.
Mas talvez seja assim que experimentamos essa transformação no cotidiano:
de situação em situação, de experiência em experiência.
A transformação alcança também aquilo que desejamos.
Paulo chama a ganância de idolatria.
E alerta sobre aqueles que imaginam que a piedade seja fonte de lucro.
Mas logo acrescenta:
“A piedade com contentamento é grande fonte de lucro.”
Talvez a diferença possa ser percebida de maneira muito simples:
A ganância diz: “Quero mais.”
O contentamento diz: “Eu tenho o suficiente.”
Então Jesus conta sobre um homem que encontrou um tesouro escondido num campo.
Ele vendeu tudo o que tinha para comprar aquele campo.
Mas há um detalhe precioso:
Ele fez isso cheio de alegria.
Ele havia encontrado algo que mudou o valor de todo o resto.
A ganância diz: “Quero mais.”
O contentamento diz: “Eu tenho o suficiente.”
Quem encontrou o tesouro diz: “Encontrei.”
Talvez a renovação da mente alcance também os nossos tesouros.
Aquilo que antes parecia indispensável começa a perder importância.
Não apenas porque aprendemos a renunciar.
Mas porque encontramos algo que vale mais.
Jesus disse: “Siga-me.”
Paulo escreveu: “Ande no Espírito.”
E João diz que aquele que permanece nele deve: “andar como ele andou.”
Um caminho não é percorrido de uma vez.
Há um passo.
Depois outro.
Depois outro.
Cada situação apresenta um novo passo.
E talvez seja justamente na hora H que possamos perceber:
O que o Espírito está fazendo em mim agora?
Não apagar. Não atrapalhar. Dar o próximo passo.
Talvez a pergunta de Paulo possa ser ouvida novamente:
“Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?”
Talvez a resposta possa ser contemplada também no caminho.
Na oposição ao nosso próprio querer.
No perdão que parecia impossível.
No mal respondido com o bem.
Na perseverança em meio à provação.
No dia em que conseguimos dizer:
“Eu tenho o suficiente.”
Paulo escreveu: “Aquele que os chama é fiel e fará isso.”
Jesus disse: “Siga-me.”
Enquanto andamos, Ele transforma.
1 Comment
Setenta vezes sete, o perdão vira rotina na vida de quem segue Jesus Cristo, não me sentir ofendido nem com a mentira, nem com a verdade, pois em qualquer situação o perdão deve prevalecer, assim o novo homem estará sendo formado em mim. Um Cristo sendo formado e o que eu posso fazer de melhor é aceitar, simples assim.