Existe algo que, por muito tempo, eu não percebia.
Eu achava que o problema da vida era não saber fazer o bem.
Então eu buscava aprender o que era certo, o que era errado, como agir melhor e como evitar falhas.
Mas, com o tempo, algo começou a ficar evidente.
Mesmo sabendo o que era certo, mesmo tentando fazer o certo, eu me cansava.
Eu já conhecia o mal.
Não precisava aprender sobre ele.
Ele já estava nas minhas reações, nos meus pensamentos, nas minhas intenções e nas minhas contradições.
E, quanto mais eu tentava equilibrar o bem que eu queria fazer com o mal que eu via em mim, mais dividido eu ficava.
Talvez esse seja um dos pontos mais difíceis de admitir: o mal não está apenas fora de nós. Nós já o conhecemos por dentro.
Sem perceber, a gente entra num ciclo:
aprende o que é certo, tenta viver isso, se esforça, falha, se frustra e tenta de novo.
E isso vai gerando peso, cobrança interna e cansaço.
Porque, no fundo, estamos tentando sustentar algo que não nasce em nós.
Jesus disse:
“Sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”
Por muito tempo, eu li isso como uma exigência.
Hoje, eu vejo como uma revelação.
Ele não está dizendo: “esforce-se mais”.
Ele está mostrando que a vida não começa em nós.
Sem a fonte, até podemos tentar. Mas não conseguimos produzir o fruto.
A gente acha que o problema é fazer o mal.
Mas, muitas vezes, o problema é outro: tentar produzir o bem sem a fonte.
E isso gera uma vida inteira de esforço, sem descanso verdadeiro.
Eu já conheço o mal. O que eu preciso agora não é me aprofundar nele, mas conhecer o bem que vem de Deus.
Por fora, pode até parecer certo.
Mas por dentro há tensão, controle e desgaste.
Você tenta ter paciência, mas está se segurando.
Você tenta amar, mas está se forçando.
Você tenta fazer o certo, mas está pesado.
Isso cansa.
Porque o bem que parte apenas de nós carrega o limite da nossa própria natureza.
Existe algo que começa a acontecer quando tentamos sustentar o bem por nós mesmos.
Quando falhamos — e, em algum momento, falhamos — duas coisas aparecem.
A primeira é interna: a vergonha.
A vergonha não vem do outro.
Ela nasce dentro.
É a sensação de inadequação.
De não conseguir.
De perceber algo em si que não gostaria de ver.
A segunda é externa: a ignomínia.
É quando isso se torna visível.
Quando há exposição.
Quando há julgamento.
Quando há desprezo.
A ignomínia vem de fora.
Mas, muitas vezes, ela encontra algo dentro… e se transforma em vergonha.
E aqui começa um ciclo pesado:
tentamos fazer o bem → falhamos → sentimos vergonha → nos expomos → enfrentamos ignomínia → nos fechamos → tentamos de novo
E o coração vai se cansando.
Não apenas pelo erro.
Mas pela exposição.
Existe algo mais profundo por trás do esforço.
Não é apenas tentar fazer o bem.
É tentar manter o controle.
Queremos acertar.
Queremos garantir.
Queremos evitar falhas.
Queremos saber onde estamos pisando.
Mas a fé nos conduz por outro caminho.
Um caminho onde nem sempre sabemos para onde estamos indo.
Porque o Espírito sopra onde quer.
E isso nos tira do controle.
Nos coloca em situações onde nos expomos.
Onde não temos garantias.
Onde não podemos sustentar nada por nós mesmos.
E, justamente ali, algo começa a nascer.
Não o esforço.
Mas a dependência.
Não o controle.
Mas a confiança.
A fé nos chama para um lugar diferente.
Um lugar onde nem sempre sabemos para onde estamos indo.
Porque o Espírito sopra onde quer.
E, muitas vezes, isso nos leva a situações onde não temos controle, não temos segurança e nos expomos.
Mas há uma diferença profunda aqui.
Não é mais o esforço tentando sustentar algo.
É a vida conduzindo.
E, nesse caminho, algo começa a mudar.
A ignomínia pode até vir.
Mas ela já não encontra o mesmo eco dentro.
Ela não se transforma mais em vergonha da mesma forma.
Porque a identidade já não está sendo construída pelo acerto, mas pela fonte.
A Bíblia chama isso de fruto.
Não é algo que você fabrica.
É algo que nasce.
A paciência aparece.
A bondade flui.
A benignidade se manifesta.
E o mais curioso é que você não está tentando.
Porque a benignidade e a bondade não são obras da carne ajustada. São fruto do Espírito.
Está em de onde isso vem.
O mesmo gesto pode existir nos dois casos.
Mas um nasce do esforço.
O outro nasce da vida.
Um tenta parecer bom.
O outro manifesta um bem que não pode ser fabricado.
Por muito tempo, eu entendi arrependimento como: “preciso melhorar”.
Hoje, vejo de outra forma.
Arrependimento é perceber.
Perceber que eu já conheço o mal, que eu não consigo produzir o bem verdadeiro e que estou tentando sustentar algo que não vem de mim.
É constatar a minha condição.
É admitir que, sem Deus, eu continuo preso nessa estrutura.
E, a partir disso, parar.
Parar de tentar ser a fonte.
Parar de tentar conduzir, controlar e garantir por mim mesmo aquilo que só pode nascer de Deus.
Existe uma mudança profunda que muitas vezes passa despercebida.
Durante muito tempo, a referência estava em nós.
“Ame o próximo como a si mesmo.”
O padrão partia de dentro.
Eu me tornava a medida.
Eu observava.
Eu tentava reproduzir.
Mas isso tem um limite.
Se eu estou ferido, amo ferindo.
Se estou dividido, amo dividido.
Se estou cansado, amo com peso.
No Novo Testamento, algo muda.
“Amem-se uns aos outros como eu amei vocês.”
A referência já não está mais em nós.
Está nEle.
E isso muda tudo.
Porque o bem deixa de ser algo que eu tento alcançar…
e passa a ser algo que nasce de uma fonte que não sou eu.
Esse caminho não começa em nós.
Não é uma decisão humana.
Não é um esforço ajustado.
Não é um entendimento mais profundo.
Tudo isso só é possível por causa de uma obra.
A obra de Cristo, o Filho do Deus vivo.
É a partir dessa obra que algo novo se torna possível.
Não uma tentativa de melhorar o que já somos.
Mas o início de uma nova fonte.
E isso não se entende apenas com a mente.
É algo que se revela.
“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
Porque é o Espírito que conduz, que mostra e que faz ver.
Então algo começa a mudar.
Não de fora para dentro, mas de dentro para fora.
Não como esforço, mas como fruto.
Não como desempenho, mas como vida.
Você continua vendo o mundo como ele é.
Continua vendo o mal.
Continua vendo as contradições.
Mas algo muda dentro:
menos conflito, menos cobrança, mais simplicidade.
E, aos poucos, o bem começa a aparecer sem ser forçado.
Não porque você se tornou a fonte.
Mas porque deixou de resistir à fonte verdadeira.
Ela vem junto.
Não porque tudo está resolvido.
Mas porque a divisão começa a desaparecer.
Quando eu sou a referência, o amor se torna esforço.
Quando Ele é a referência, o amor se torna fruto.
Eu não preciso aprender a fazer o bem.
Eu preciso aprender a permanecer na fonte.
Porque o mal eu já conheço.
Agora, preciso conhecer o bem que vem de Deus, pelo Espírito.
E, quando isso acontece, o bem deixa de ser um esforço e passa a ser fruto.
Não começa em mim.
Começa nEle.
E continua sendo revelado pelo Espírito.
Enquanto eu for a referência, o bem continuará pesado.
Quando Cristo se torna a referência, o bem deixa de ser uma tentativa… e passa a ser vida.
O conflito parece certo — mas pode estar te cegando
A ignomínia
1 Comment
Bom dia Airton, Quando parte de nós sempre vai ser um Esforço, um peso quando Cristo é Referência é Vida .