A Vida continua chamando os mortos
“Sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não poderão vencê-la.”
Durante muito tempo, aprendemos a ouvir essa frase pensando no inferno como alguma coisa que nos espera depois da morte.
Mas Jesus falou das portas do Hades.
O mundo dos mortos.
E talvez a morte esteja mais perto de nós do que imaginamos.
Jesus certa vez disse:
“Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos.”
E também:
“Está chegando a hora, e de fato já chegou, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que a ouvirem viverão.”
Mortos que ainda andam.
Mortos que ainda trabalham.
Mortos que conversam, discutem, julgam, condenam.
E mortos que podem ouvir a voz da Vida.
Lázaro estava morto havia quatro dias.
Quando Jesus mandou retirar a pedra do túmulo, Marta advertiu:
“Senhor, ele já cheira mal.”
E o cheiro era real.
Jesus não disse que Marta estava enganada.
A morte cheira mal.
Há coisas em nós que cheiram mal.
Há coisas nas pessoas que amamos que cheiram mal.
Há erros verdadeiros, fraquezas verdadeiras, pecados verdadeiros. Há palavras mal colocadas, comportamentos que ferem, pensamentos dos quais discordamos profundamente.
Não precisamos chamar o mau cheiro de perfume.
Jesus disse:
“Tirem a pedra.”
E depois chamou:
“Lázaro, venha para fora!”
Aquele que estava morto saiu.
Mas não saiu pronto.
Suas mãos e seus pés ainda estavam envolvidos em faixas, e seu rosto estava coberto.
Ele estava vivo.
Mas ainda carregava sobre si coisas da morte.
Então Jesus disse:
“Tirem as faixas dele e deixem-no ir.”
Talvez tenhamos dificuldade justamente aqui.
Somos muito bons em perceber as faixas dos outros.
Percebemos uma palavra errada.
Uma opinião errada.
Uma interpretação errada.
Um comportamento inadequado.
Uma falha na fala.
Uma falha no texto.
Uma falha na pessoa.
E muitas vezes aquilo que percebemos é real.
O problema não está em perceber o mosquito.
O problema começa quando, ocupados com ele, engolimos o camelo.
Jesus advertiu sobre isso:
“Vocês coam um mosquito e engolem um camelo.”
Podemos encontrar alguma coisa errada praticamente em qualquer pessoa.
E elas também encontrarão em nós.
Se esperarmos pessoas sem faixas, ficaremos sozinhos.
Lázaro saiu do túmulo ainda envolvido por elas.
A ordem de Jesus não foi:
“Olhem as faixas dele.”
Foi:
“Tirem as faixas dele e deixem-no ir.”
O evangelho não nos foi entregue por pessoas perfeitas.
Paulo sabia disso.
“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro.”
O vaso continua sendo barro.
O tesouro continua sendo tesouro.
Talvez uma das nossas maiores dificuldades seja olhar tanto para o vaso que deixamos de perceber o que ele carrega.
Esperamos uma palavra perfeita.
Uma voz perfeita.
Uma pessoa perfeita.
Uma igreja perfeita.
Uma interpretação perfeita.
E, enquanto examinamos o barro, o tesouro pode passar diante dos nossos olhos.
Por isso somos orientados:
“Examinem todas as coisas, retenham o que é bom.”
Examinar tudo não significa procurar alguma coisa para rejeitar.
Significa procurar aquilo que deve ser retido.
O olhar pode encontrar o erro.
O amor procura o que pode ser salvo.
Portas não atacam.
Portas fecham.
Portas impedem a passagem.
Portas mantêm alguém do lado de dentro.
Talvez por isso a imagem usada por Jesus seja tão bonita.
“As portas do Hades não poderão vencê-la.”
Jesus entrou na morte.
“Ninguém tira a minha vida de mim, mas eu a dou por minha espontânea vontade. Tenho autoridade para dá-la e para retomá-la.”
Ele morreu.
Foi sepultado.
Mas a morte não conseguiu retê-lo.
As portas não prevaleceram.
E aquele que venceu a morte continua chamando:
“Venha para fora.”
O evangelho é a notícia de que as portas não precisam continuar fechadas.
“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou.”
A morte prende.
Cristo liberta.
A condenação prende.
Cristo liberta.
O medo prende.
Cristo liberta.
Nossa necessidade de julgar prende.
Cristo liberta.
E até nosso desejo de perfeição pode se transformar numa faixa quando imaginamos que alguém só poderá ser amado depois de estar pronto.
Há pessoas das quais preferimos manter distância.
Às vezes porque suas escolhas nos incomodam.
Às vezes porque sua vida nos incomoda.
Às vezes porque suas ideias nos incomodam.
Às vezes porque o cheiro é real.
Mas Jesus aproximou-se daqueles dos quais muitos religiosos preferiam afastar-se.
Publicanos.
Pecadores.
Prostitutas.
Pessoas rejeitadas.
Não porque chamasse o mal de bem.
Mas porque a Vida não tem medo da morte.
Talvez tenhamos imaginado a igreja como pessoas protegidas atrás de suas portas para que o mundo dos mortos não entre.
Jesus apresentou outra imagem:
as portas do mundo dos mortos é que não prevalecerão.
Não somos nós que damos vida aos mortos.
A voz é dele.
Mas podemos retirar pedras.
Podemos deixar de colocar obstáculos.
Podemos anunciar a Vida.
E, quando alguém começar a sair, ainda cheio de faixas, podemos ajudar a retirá-las.
“Deixem-no ir.”
Neste domingo teremos eleições.
Pessoas que amamos votarão de maneiras diferentes.
Algumas são conservadoras.
Outras são progressistas.
Algumas defenderão suas posições com convicção.
Outras defenderão posições completamente diferentes.
Podemos discordar.
Podemos examinar.
Podemos considerar determinadas ideias profundamente equivocadas.
Mas recebemos de Jesus um mandamento:
“Assim como eu amei vocês, amem-se também uns aos outros.”
E ele acrescentou:
“Nisto todos conhecerão que vocês são meus discípulos: se vocês amarem uns aos outros.”
Não quando concordarem uns com os outros.
Quando amarem uns aos outros.
Podemos amar quem pensa diferente.
Podemos amar quem vota diferente.
Podemos amar quem ainda está cheio de faixas.
Podemos amar quem vê nossas próprias faixas.
A eleição passará.
Nossas opiniões continuarão mudando.
Governos passarão.
Ideologias passarão.
Mas não precisamos perder uns aos outros.
Talvez as portas do inferno estejam muito mais próximas do que imaginamos.
Toda vez que a morte tenta nos convencer de que alguém deve permanecer preso ao seu erro, ao seu passado, à sua posição, à sua fraqueza, às suas faixas, ouvimos novamente a voz daquele que é a ressurreição e a vida:
“Venha para fora.”
O cheiro pode ser real.
Mas não é definitivo.
As faixas podem ser reais.
Mas não são a pessoa.
O barro pode ser real.
Mas dentro dele pode haver um tesouro.
Por isso, talvez nosso trabalho não seja procurar mais faixas.
Talvez seja ajudar a retirá-las.
Porque as portas do Hades não prevalecerão contra aquilo que Cristo está edificando.
A Vida continua chamando os mortos.
E aqueles que ouvirem viverão.
2 Comments
VOCÊ É ESPECIAL MEU AMIGO, ARTIGO MUITO RICO, FICO FELIZ EM PODER TER ACESSO A ISSO. ABRAÇOS
Excelente texto! Toca feridas profundas e é muito verdadeiro. Que o Espírito Santo nos guie e conduza à verdade e à vida!