A outra face

Duas mulheres parecidas se olhando face a face

Jesus disse:

“Se alguém bater em você numa face, ofereça-lhe também a outra.”

Talvez tenhamos ouvido essas palavras muitas vezes apenas como uma ordem para não revidar.

Mas pode haver uma imagem muito bonita escondida aqui.

Qual face apresentamos depois de receber o mal?


Como em um espelho

Paulo escreveu:

“Agora vemos como em espelho, obscuramente; então veremos face a face.”

Hoje vemos apenas em parte.

Mas Paulo também diz que, contemplando a glória do Senhor, somos:

“transformados na mesma imagem, de glória em glória.”

E fala ainda do:

“conhecimento da glória de Deus na face de Cristo.”

Espelho.

Imagem.

Face.

Transformação.

Talvez essas palavras possam nos ajudar a contemplar de outra maneira aquilo que Jesus ensinou ao falar da outra face.


Qual face eu reflito?

Alguém me apresenta ira.

Se devolvo ira, torno-me seu espelho.

Alguém me apresenta desprezo.

Se devolvo desprezo, sua face começa a aparecer em mim.

Alguém me fere.

Se devolvo a ferida, aquilo que recebi simplesmente encontrou em mim um caminho para continuar.

A face daquele que me feriu determinou a face que apresentei a ele.

Mas não precisa ser assim.

Foi isso que vimos ao contemplar o fruto do Espírito: o amor produz alegria, paz e paciência. Quando o mal chega, a amabilidade pode envolvê-lo; a bondade pode responder com o bem; a fidelidade permanece nesse caminho; a mansidão vai nos transformando; e o domínio próprio alcança até a nossa língua.

Então alguma coisa muda.

Recebo uma face.

Mas posso oferecer outra.


A face de Cristo

Paulo chama Cristo de imagem de Deus e fala da glória de Deus na face de Cristo.

E diz que nós estamos sendo transformados:

“na mesma imagem, de glória em glória.”

Talvez oferecer a outra face seja também não permitir que a imagem daquele que me feriu seja reproduzida em mim.

Não preciso tornar-me semelhante àquilo que recebi.

Posso continuar contemplando outra face.

E, enquanto contemplo, vou sendo transformado.

De glória em glória.


O amor permanece

Há ainda uma coisa muito bonita.

A frase “agora vemos como em espelho, obscuramente” aparece justamente no capítulo em que Paulo fala do amor.

Do amor que é paciente e bondoso.

Do amor que:

“tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

Talvez seja justamente esse amor que nos permite continuar oferecendo outra face quando a primeira foi ferida.

O amor recebe o que veio do outro, mas não precisa devolver a sua imagem.

O amor permanece.


Hoje ainda vemos como em espelho, obscuramente.

Ainda conhecemos em parte.

Talvez aquilo que refletimos também seja imperfeito.

Mas quando alguém nos apresenta a face da ira, do desprezo ou da maldade, já não precisamos simplesmente devolvê-la como um espelho.

Podemos oferecer outra face.

Talvez ainda frágil.

Talvez ainda obscura.

Mas uma face que começa, pouco a pouco, a refletir alguma coisa daquele que contemplamos.

João escreveu:

“Ninguém jamais viu a Deus.”

E, no entanto:

“Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós.”

Talvez não vejamos ainda claramente.

Mas, quando o amor se torna sensível ao outro, alguma coisa do Deus invisível começa a aparecer entre nós.

E talvez, nessa outra face, alguém possa contemplar, ainda como em um espelho, alguma coisa da face de Cristo.


Referências bíblicas:
Mateus 5:39; 1 Coríntios 13:4–13; 2 Coríntios 3:18; 2 Coríntios 4:4–6; Colossenses 1:15; 1 João 4:12.


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1 Comment

  1. João Carlos de Carvalho disse:

    Oferecer a outra face. Há alguma semelhança com dar a Cesar o que é de Cezar e a Deus o que é de Deus. Se me pedes ausência eu te dou ausência.
    Que me dizes disso?

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