Vemos obscuramente

Renascimento de um broto no toco de árvore ao Amanhecer

Paulo escreveu:

“Agora vemos como em espelho, obscuramente… Agora conheço em parte.”

Talvez essas palavras não falem apenas de quanto ainda conhecemos pouco de Deus.

Talvez também precisemos nos lembrar delas quando olhamos para o outro.

Porque podemos olhar para alguém e acreditar que sabemos exatamente quem ele é.

Vemos seus erros.

Vemos sua história.

Vemos aquilo que fez.

E pensamos que vimos o homem inteiro.

Mas talvez ainda estejamos vendo obscuramente.


O toco e a semente

Isaías viu o Senhor.

E, diante dele, sua primeira percepção não foi sobre os outros:

“Ai de mim!… Sou um homem de lábios impuros.”

Depois, Isaías é enviado a um povo que olha, mas não percebe; ouve, mas não compreende.

E pergunta:

“Até quando, Senhor?”

A resposta é dura.

As cidades seriam devastadas. As casas ficariam desabitadas. A terra seria assolada.

A árvore seria derrubada.

Parecia o fim.

Mas não era.

“Depois de derribados, ainda fica o toco; assim a santa semente é o seu toco.”

Nós podemos olhar para uma árvore derrubada e ver apenas um toco.

Deus ainda pode ver a santa semente.


O que eles viram?

Na cruz havia um homem condenado.

Ferido.

Humilhado.

Pendurado num madeiro.

Muitos olharam.

Um dos criminosos ao seu lado também olhou e zombou.

Mas o outro olhou para o mesmo homem crucificado e disse:

“Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.”

Que Reino ele conseguiu enxergar ali?

Não havia trono.

Não havia exército.

Não havia aparência de vitória.

Havia apenas outro homem crucificado ao seu lado.

Mas, de alguma maneira, ele viu um Rei e um Reino.

E o centurião também olhou.

Viu como Jesus morreu e disse:

“Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus.”

Muitos estavam olhando para a mesma cruz.

Mas nem todos estavam vendo a mesma coisa.


Este seu irmão

Jesus contou também a história de um homem que realmente havia se perdido.

Saiu da casa do pai.

Desperdiçou tudo.

E voltou.

O irmão mais velho conhecia sua história.

Sabia o que ele havia feito.

E, quando fala dele com o pai, diz:

“esse teu filho…”

Ele olha para o homem que voltou e ainda vê o perdido.

Mas o pai olha para o mesmo homem e diz:

“este seu irmão…”

E acrescenta:

“estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado.”

Os dois olham para a mesma pessoa.

Um vê aquilo que ele foi.

O outro vê aquilo que está acontecendo agora.

O irmão mais velho não está mentindo sobre o passado.

O problema é que aquilo que ele vê não é tudo.

Ele conhece os erros do irmão.

Mas ainda não consegue enxergar:

ele foi achado.


Aprender a ver

Talvez seja por isso que precisamos guardar:

“Agora conheço em parte.”

Quando julgo definitivamente meu irmão, talvez esteja supondo que vejo claramente.

Mas não vejo.

Não conheço tudo o que aconteceu dentro dele.

Não conheço tudo aquilo que Deus ainda pode fazer.

Talvez eu esteja olhando para um toco sem conseguir enxergar a santa semente.

Talvez esteja olhando para alguém que esteve perdido sem perceber que alguma coisa já começou a ser encontrada.

E é justamente no mesmo capítulo em que Paulo diz que vemos obscuramente que ele escreve:

“O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”

O amor não nega aquilo que vê.

Não chama o mal de bem.

Apenas não presume que aquilo que vê seja tudo.


Senhor, quando te vimos?

Jesus contou ainda sobre pessoas que um dia lhe perguntariam:

“Senhor, quando te vimos?”

Quando te vimos com fome?

Quando te vimos com sede?

Quando te vimos estrangeiro, necessitado, enfermo ou preso?

Elas tinham visto aquelas pessoas.

Mas não tinham percebido quem estava diante delas.

E Jesus responde:

“O que vocês fizeram a um dos menores destes meus irmãos, a mim o fizeram.”

Talvez essa seja uma das perguntas mais profundas que podemos fazer diante da face do outro:

O que estou vendo?

Posso estar vendo apenas um pobre.

Um preso.

Um estranho.

Um perdido.

Um toco.

E talvez ainda não tenha aprendido a enxergar:

“um destes meus irmãos.”

João escreveu que quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.

Talvez aprender a ver o Deus invisível e aprender a ver verdadeiramente o irmão visível sejam coisas muito mais próximas do que imaginamos.


Jesus disse a Nicodemos:

“Ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo.”

E depois falou sobre entrar no Reino.

Talvez aprender a entrar passe também por aprender a ver.

E há algo muito bonito na história dos dois irmãos.

O filho que estava perdido voltou para casa.

O pai faz uma festa.

Mas o irmão mais velho ficou do lado de fora.

O pai saiu para encontrá-lo também.

E tentou fazê-lo enxergar:

“este seu irmão…”

Era preciso alegrar-se.

Era preciso festejar.

Porque aquele que estava perdido:

foi achado.

Talvez, algumas vezes, não seja o perdido que permanece do lado de fora.

Pode ser aquele que ainda não conseguiu enxergar que seu irmão foi encontrado.

Hoje ainda vemos como em espelho, obscuramente.

Vemos o erro.

Vemos a ferida.

Vemos o passado.

Vemos o toco.

Mas talvez ainda não consigamos ver a santa semente.

Por isso o amor espera.

E talvez aprender a ver o Reino de Deus comece também assim:

aprendendo a olhar novamente para a face do nosso irmão.


Referências bíblicas:
Isaías 6:1–13; Lucas 23:39–43; Marcos 15:39; Lucas 15:11–32; Mateus 25:31–46; João 3:3–5; 1 Coríntios 13:7,9–13; 1 João 4:20.


Artigos relacionados:

A bondade do Senhor

A outra face

image_pdfDownload

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *