Eu sei que sou mau, mas sinto que sou bom

Eu sei que sou mau, mas sinto que sou bom

Sei que sou mau

Sei que sou mau

Eu sei que sou mau, 
mas sinto que sou bom

Há algo em mim que eu sei — e algo em mim que me engana.
Eu sei, racionalmente, existencialmente, que o ser humano não é bom. Sei da inclinação, da distorção, da facilidade com que justificamos o que não deveria ser justificado. Ainda assim, quando olho para dentro, eu me sinto bom. Não porque eu seja, mas porque o sentimento constrói essa sensação com enorme habilidade. Essa distância entre o que sei e o que sinto não me condena; ela me inquieta. E é exatamente nessa inquietação que algo importante começa a aparecer.

Essa percepção, porém, não se sustenta. Ela surge com clareza, quase como um lampejo, e depois enfraquece. Por alguns instantes, tudo parece evidente: a fragilidade da minha natureza, a facilidade do autoengano, a dependência de algo que não nasce em mim. Mas, passado o impacto inicial, o sentimento volta a ocupar espaço. A lucidez diminui. Não porque a verdade tenha mudado, mas porque eu não consigo permanecer nela. E talvez essa impermanência diga mais sobre mim do que qualquer conclusão bem formulada.

Ao perceber isso, lembrei-me de Salomão. Em meio à sua busca intensa por sabedoria, ele buscou tornar-se sábio — e percebeu que a sabedoria estava longe dele. Não era falta de esforço, nem de inteligência, nem de experiência; era limite humano. Talvez o que ele tenha visto não tenha sido a ausência da verdade, mas a impossibilidade de retê-la como posse. Algo muito parecido acontece aqui: a compreensão se apresenta, ilumina, e depois escapa. Não porque seja falsa, mas porque não cabe inteiramente em nós.

O que mais me intriga nisso tudo é o papel do sentimento. Mesmo quando a consciência já viu com clareza, ele insiste em contar outra história. Não nega a verdade frontalmente; apenas a dilui. Suaviza, acomoda, reconstrói a autoimagem. Não diz explicitamente “você é bom” — apenas faz com que pareça que somos. E essa sensação é poderosa, porque é confortável, familiar e difícil de contestar. O sentimento não precisa estar certo para convencer; basta ser constante.

É aí que a tensão se instala. De um lado, aquilo que vi com clareza; do outro, aquilo que continuo sentindo. Não se trata de uma luta barulhenta ou dramática, mas de algo silencioso, quase educado. A consciência aponta numa direção; o sentimento puxa noutra. E o mais desconcertante é perceber que essa tensão não se resolve por esforço, nem por repetição, nem por boa vontade. Quanto mais tento sustentar a lucidez, mais evidente fica o limite. Não é falta de entendimento; é incapacidade de permanência.

Talvez seja justamente aí que a lucidez encontre seu ponto mais honesto. Não como algo que se mantém sozinho, mas como algo que exige dependência. A compreensão não parece ter sido feita para ser administrada por nós, como quem guarda um objeto valioso no bolso. Ela se mantém apenas enquanto há atenção e vigilância — e mesmo assim, não por mérito. Começo a suspeitar que a lucidez necessária à vida não nasce da força interior, mas da consciência de que, deixados a nós mesmos, voltamos rapidamente ao lugar confortável do autoengano.

A partir daí, uma percepção começa a se impor com certa clareza incômoda: se algo não me impedir, eu me perco. Não necessariamente em grandes erros ou gestos escandalosos, mas nas pequenas distorções diárias — justificativas sutis, autoindulgência, narrativas convenientes. Não é pessimismo, nem autodepreciação. É observação. Quando a lucidez enfraquece, o caminho de retorno ao conforto é rápido e quase automático. Isso me faz suspeitar que o problema não está apenas em errar, mas em confiar demais em mim mesmo quando nada me freia.

Curiosamente, quando digo às pessoas que sou mau, quase sempre encontro resistência. Elas discordam de mim, relativizam, tentam me corrigir. Dizem que sou exagerado, duro demais comigo mesmo, que não é bem assim. Isso sempre me chama a atenção. Não apenas porque elas não veem o que eu vejo, mas porque há um incômodo coletivo em admitir esse ponto. Parece que precisamos sustentar a ideia de que somos bons — ou ao menos razoáveis — para continuar funcionando. Talvez o sentimento não nos engane apenas por dentro; talvez ele seja também um acordo silencioso entre nós.

Diante disso, o que me resta não é uma conclusão, mas atenção. Não a atenção tensa de quem tenta se corrigir, mas a vigilância simples de quem já sabe do que é capaz quando se distrai. Talvez viver com alguma lucidez seja apenas isso: perceber quando ela se aproxima, reconhecer quando se afasta, e não confiar demais em si mesmo nos intervalos. Não sei como sustentar essa clareza. Sei apenas que, quando a perco, perco junto algo essencial. E isso, por si só, já é motivo suficiente para permanecer atento.

3 Comments

  1. Luiz Augusto disse:

    Bom dia.
    Refleti sobre seu texto. Ele reflete sua busca do entendimento da alma e sua natureza.
    Quando observo um homem, eu por exemplo, vejo a humanidade.
    Quando nos vemos como indivíduo, percebemos nossas muitas limitações, a subserviência aos desejos e necessidades. Quando, porém, nos vemos como partícula do grande espírito chamado humanidade, a humildade nos aconselha a nos aperfeiçoar, a dar nossa pequena contribuição na obra de um Deus universal. Ora despertos, ora tomados pela bruma das ilusões, seguimos sob o peso da grande interrogação: onde está a verdade? Seria a verdade sólida, iluminada, imutável?
    Um espírito de luz certa vez nos disse: ” Buscareis a verdade e a verdade vos libertará.”
    Seríamos, então, prisioneiros dessa busca?
    Disse também: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.
    Minha conclusão: cada um, imerso no grande corpo espiritual chamado humanidade, segue intuitivamente seu caminho, tateando pela vida, como cego na multidão. Quando encontramos o Cristo, e ele veio para ser buscado e encontrado, devemos nos ajoelhar e, chorando, lavar os seus pés, beber de seus ensinamentos e obedecer os seus conselhos, ainda que contrariando a carne, a vontade e os homens.
    Sua verdade nos libertará, ainda que demore por incontáveis existências. O espírito é eterno, assim como o amor de Cristo.

  2. João Carlos de Carvalho disse:

    Que leitura da alma humana, seria um pensamento ou uma verdade, ela é o que acreditamos como tal, também pode ser verdade que passe pela vida sinceramente enganado a meu respeito e do mundo que me cerca. O que sei por vivência é que a imensa maioria das pessoas não querem a verdade, sabe a verdade que liberta e mostra a nossa realidade.

  3. Nadir Humber disse:

    Diante disso, o que me resta não é uma conclusão, mas atenção. Não a atenção tensa de quem tenta se corrigir, mas a vigilância simples de quem já sabe do que é capaz quando se distrai. Talvez viver com alguma lucidez seja apenas isso: perceber quando ela se aproxima, reconhecer quando se afasta, e não confiar demais em si mesmo nos intervalos. Não sei como sustentar essa clareza. Sei apenas que, quando a perco, perco junto algo essencial. E isso, por si só, já é motivo suficiente para permanecer atento.
    Esse foi o texto que mais me tocou no sentido de me autoidentificar nele. É exatamente isso!
    Obrigada, irmão!

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