Paulo escreve:
“Assim como vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor, continuem a viver nele…”
Depois:
“Tenham cuidado para que ninguém os escravize…”
Mais adiante:
“Não permitam que ninguém os julgue…”
E novamente:
“Não permitam que ninguém…”
Até que chegamos a duas afirmações aparentemente contraditórias:
“Vocês morreram com Cristo…”
e, pouco depois:
“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês…”
Vocês morreram.
Portanto, façam morrer.
Como alguém que já morreu ainda precisa fazer morrer?
A estranheza aumenta quando continuamos lendo.
Paulo diz:
“Vocês se despiram do velho homem com suas práticas e se revestiram do novo…”
Mas algumas linhas depois:
“Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência.”
Vocês já se revestiram.
Portanto, revistam-se.
Talvez haja aqui uma chave importante para compreender toda essa parte da carta.
Paulo não começa pelo que precisamos fazer.
Começa pelo que aconteceu conosco em Cristo.
Primeiro, recebemos
Tudo começa com uma expressão muito simples:
“Vocês receberam Cristo Jesus, o Senhor…”
Não produziram.
Não conquistaram.
Não alcançaram por merecimento.
Receberam.
E não receberam simplesmente uma doutrina, um conjunto de regras ou um novo conhecimento religioso.
Receberam Cristo Jesus, o Senhor.
Por isso Paulo continua:
“…continuem a viver nele, enraizados e edificados nele…”
A imagem é bonita.
Uma árvore não produz o solo no qual está enraizada.
Ela recebe daquilo em que está plantada.
E talvez seja por isso que, logo depois, Paulo faça uma advertência:
“Tenham cuidado para que ninguém os escravize…”
Não parece ser uma advertência para que consigam alguma coisa que ainda não possuem.
É quase o contrário.
Cuidado para que ninguém os afaste daquilo que já receberam.
Porque Paulo acabara de dizer algo extraordinário sobre Cristo:
“Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.”
E pouco depois acrescenta:
“Em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e, por estarem nele, vocês receberam a plenitude.”
Todos os tesouros estão nele.
Toda a plenitude está nele.
E vocês estão nele.
Então, por que voltar às sombras?
A vida escondida
Pouco depois aparece outra palavra que merece atenção:
Escondida.
“Pois vocês morreram, e agora a sua vida está escondida com Cristo em Deus.”
Antes, eram os tesouros da sabedoria e do conhecimento que estavam
escondidos em Cristo.
Agora é a nossa própria vida que está
escondida com Cristo em Deus.
E Paulo vai ainda mais longe:
“Quando Cristo, que é a vida de vocês, for manifestado…”
Ele não diz apenas que Cristo nos dá vida.
Cristo é a vida de vocês.
Temos, então:
os tesouros escondidos em Cristo;
a nossa vida escondida com Cristo em Deus;
e Cristo como a nossa própria vida.
Isso lembra uma antiga e surpreendente declaração do profeta Isaías:
“Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde…”
Mas o Deus que se esconde também diz:
“Vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo o coração.”
Isaías também diz:
“Busquem o Senhor enquanto é possível achá-lo; clamem por ele enquanto está perto.”
E Jesus:
“Busquem, e encontrarão.”
Porque:
“Todo o que busca encontra.”
Talvez escondido não queira dizer ausente.
Pode significar: presente, mas ainda não plenamente manifesto.
Portanto, busquem
E é exatamente esse verbo que aparece em Colossenses:
“Portanto, já que vocês ressuscitaram com Cristo, busquem as coisas que são do alto…”
Outra aparente contradição.
Eles já receberam Cristo.
Já morreram com Cristo.
Já ressuscitaram com Cristo.
Sua vida está escondida com Cristo em Deus.
E agora:
Busquem.
Não parece ser a busca de alguém que procura um Deus distante para conseguir encontrá-lo.
É a busca de quem já recebeu Cristo e cuja própria vida está escondida com ele em Deus.
Talvez por isso Jesus tenha dito:
“Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas serão acrescentadas a vocês.”
Jesus acabara de falar sobre comida, bebida e roupas.
Coisas necessárias.
Mas não coisas que deveriam ocupar o primeiro lugar da busca.
Busquem o Reino.
As outras coisas serão acrescentadas.
A árvore não come o próprio fruto
Talvez a imagem da árvore nos ajude.
O Salmo fala daquele que é:
“como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha.”
A árvore está plantada junto às águas.
E então dá fruto.
Ela não corre atrás do fruto.
Não produz a água.
Não fabrica a vida.
Recebe.
E frutifica.
Mais interessante ainda:
A árvore não come o próprio fruto.
O fruto que nasce nela serve a outro.
Essa imagem atravessa as Escrituras.
Deus disse a Abraão:
“Eu o abençoarei […] e você será uma bênção.”
Não apenas:
Eu o abençoarei.
Mas:
Você será uma bênção.
A bênção recebida não termina naquele que a recebe.
Jesus dirá que, no Reino de Deus, o maior é aquele que serve.
E Paulo preservou uma frase de Jesus:
“Há maior felicidade em dar do que em receber.”
Primeiro recebemos.
Depois damos.
E talvez seja exatamente isso que acontece com a árvore.
Ela recebe da água.
E oferece fruto.
No final das Escrituras, a imagem alcança as nações:
“As folhas da árvore servem para a cura das nações.”
Fruto para alimentar.
Folhas para curar.
A vida recebida torna-se vida para o outro.
Cristo é a vida
Agora podemos voltar ao estranho imperativo de Paulo:
“Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês…”
A ordem é fundamental.
Paulo não diz:
Façam morrer para que possam morrer com Cristo.
Ele diz:
Vocês morreram com Cristo.
E depois:
Portanto, façam morrer.
Não diz:
Revistam-se para que possam tornar-se o novo homem.
Primeiro diz:
Vocês se revestiram do novo.
E depois:
Portanto, revistam-se.
O fato vem antes do imperativo.
A vida vem antes do fruto.
E aquilo de que devem se revestir é profundamente voltado para o outro:
compaixão,
bondade,
humildade,
mansidão,
paciência,
perdão,
amor.
Talvez estejamos novamente diante da árvore.
A vida está escondida nas raízes.
Mas o fruto aparece.
A vida escondida se manifesta
Paulo havia dito:
“A sua vida está escondida com Cristo em Deus.”
Mas continua:
“Quando Cristo, que é a vida de vocês, for manifestado, então vocês também serão manifestados com ele em glória.”
Escondida.
Depois: manifestada.
Isso ilumina outra expressão da própria carta:
“Cristo em vocês, a esperança da glória.”
Talvez a glória não seja apenas alguma coisa que receberemos um dia.
Há também a ideia da manifestação daquilo que hoje está escondido.
Cristo em nós.
Cristo, nossa vida.
E essa vida sendo manifestada.
É difícil não lembrar:
“O Filho é o resplendor da glória de Deus…”
O resplendor é a luz tornando-se visível.
A luz se manifesta.
Brilha.
Pode ser vista.
Jesus disse:
“Vocês são a luz do mundo.”
E:
“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem o Pai de vocês que está nos céus.”
Talvez compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência, perdão e amor sejam
justamente algumas das maneiras pelas quais
a vida escondida começa a tornar-se visível.
A raiz permanece escondida.
O fruto aparece.
Habite
E então Paulo chega a uma frase que talvez seja uma das chaves de toda essa reflexão:
“Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo…”
O verbo é surpreendente.
Paulo não diz:
Compreendam plenamente.
Não diz:
Dominem intelectualmente.
Nem mesmo:
Expliquem.
Diz:
Habite.
É linguagem de morada.
Algo pode habitar em nós mesmo quando ainda não conseguimos explicar plenamente aquilo que está acontecendo.
Talvez aí esteja uma dificuldade particular para nossa necessidade de compreender.
Queremos saber como funciona.
Queremos estabelecer causas, processos e consequências.
Queremos montar o diagrama.
Mas Paulo nos apresenta algo que ele próprio chama de:
mistério.
“Cristo em vocês, a esperança da glória.”
E talvez tenhamos cometido muitas vezes um pequeno engano:
tratamos o mistério como se fosse um enigma.
Mistério ou enigma?
Um enigma existe para ser solucionado.
Enquanto não encontramos a resposta, ele permanece um enigma.
Quando finalmente descobrimos a solução, acabou.
O enigma deixou de existir.
Mas talvez o mistério seja diferente.
Em Colossenses, o mistério foi revelado.
Paulo nos diz qual é:
Cristo em vocês.
Portanto, não é um segredo que Deus se recusa a contar.
O mistério foi dado a conhecer.
E, no entanto, permanece mistério.
Sabemos o que Paulo está anunciando.
Mas talvez não consigamos explicar plenamente como isso acontece.
Como Cristo pode ser a nossa vida?
Como podemos ter morrido com Cristo e ainda precisar fazer morrer?
Como podemos ter ressuscitado com Cristo e ainda precisar buscar?
Como podemos já ter nos revestido do novo e ainda precisar nos revestir?
Como Deus pode efetuar em nós o querer e o realizar e, ao mesmo tempo, Paulo dizer:
façam?
Como o Espírito pode lutar contra a carne para que não façamos aquilo que queremos
e, ainda assim, sermos nós aqueles que agem?
Talvez nossa necessidade de compreender queira aquilo que Paulo não nos oferece:
o diagrama completo do funcionamento.
Paulo nos oferece algo diferente.
Ele nos mostra a realidade.
E talvez aqui esteja uma distinção preciosa:
não compreender plenamente o mecanismo não significa não conhecer a realidade.
Uma árvore não precisa compreender a fotossíntese para dar fruto.
Ela permanece junto às águas.
Recebe.
Vive.
E, no devido tempo, frutifica.
Talvez também não consigamos explicar plenamente:
“Cristo em vocês.”
Mas podemos ouvir:
“Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo.”
Podemos continuar buscando.
Podemos continuar examinando.
Podemos reconhecer que hoje enxergamos um pouco mais do que ontem e, talvez amanhã, algumas outras escamas caiam dos nossos olhos.
Não se trata de desistir de compreender.
Trata-se de compreender tudo o que nos for dado compreender
sem exigir que o mistério deixe de ser mistério para que possamos recebê-lo.
Jesus não disse:
Compreendam-me inteiramente.
Disse:
“Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês.”
Talvez seja suficiente, por enquanto.
A árvore permanece junto às águas.
A vida continua escondida nas raízes.
E, no devido tempo,
o fruto aparece.


2 Comments
Talvez por isso a imagem da árvore seja tão poderosa: o fruto revela o que aconteceu na raiz. Jesus ensina que é do coração que procedem nossas ações, palavras, desejos e intenções. Se a raiz do problema humano está no coração, Deus não veio apenas corrigir comportamentos ou aparar os frutos ruins de uma árvore doente. Na cruz, Cristo foi até a raiz. A promessa de Ezequiel é justamente essa: purificar, retirar o coração endurecido, colocar em nós um novo coração e fazer habitar em nós o seu Espírito. É uma transformação que não conseguimos fabricar por esforço próprio. A árvore não produz a água que lhe dá vida; ela recebe. Da mesma maneira, recebemos de Deus uma vida que não conseguiríamos produzir em nós mesmos: Cristo em nós.
E então o novo coração começa a aparecer — e o fruto é a manifestação visível dessa nova vida. Compaixão, bondade, humildade, mansidão, paciência, perdão, amor, gratidão: aquilo que estava escondido na raiz torna-se visível nos relacionamentos, nas escolhas, nas tentações, nos conflitos e até na maneira como tratamos quem nos decepciona. Não produzimos esses frutos para conquistar um coração novo; frutificamos porque Deus nos deu um novo coração. E, como a árvore não come o próprio fruto, essa transformação não termina em nós: Deus muda nosso coração para que sua vida alcance outras pessoas através de nós. O coração purificado vê a Deus — e quem começa a vê-lo começa também, pouco a pouco, a refletir quem Ele é.
Despreocupar-se quanto ao resultado, assim aceitei Cristo sendo formado em mim como um processo que não sofre interrupção nem mesmo quando parece não ir em nenhuma direção. Muito útil sua reflexão.