Não é melhor cada um cuidar da sua vida?

Não é melhor cada um cuidar da sua vida?

Café da manhã na padaria com a netinha

Uma conversa com a Anna depois de uma pequena cena na padaria.

Aos domingos, sempre que possível, tomo café da manhã em alguma padaria com a Anna, minha netinha de seis anos.

Neste domingo, quando chegamos, uma mulher se encantou com ela. Era fácil perceber.

Sentamos, pedimos nosso café e, enquanto esperávamos, passei um pequeno texto infantil para a Anna ler.

Ela começou a leitura e eu fiquei apenas olhando.

Depois de algum tempo, percebi certa agitação na mesa daquela mulher.

Até que ela se levantou, veio até nós, aproximou-se da Anna e disse:

— Você é uma menina muito linda, e o seu avô está esperando para conversar com você, mas você está olhando o celular… Por que você não deixa o celular de lado e aproveita esse tempo para conversar com ele?

A Anna ficou surpresa.

Eu me antecipei, agradeci delicadamente e expliquei que ela estava lendo um texto a meu pedido.

A mulher entendeu e voltou para o lugar dela.

Anna continuou a leitura.

E não falamos mais sobre aquilo.

Só mais tarde, no carro, durante a volta para casa, lembrei do episódio e perguntei:

— Anna, o que você achou daquela situação na padaria?

Ela respondeu imediatamente:

— Muito chato, vovô!

E completou:

— Não é melhor cada um cuidar da sua vida?

Sorri.

Mas fiquei pensando naquela frase.

A mulher parecia estar movida por uma boa intenção.

Ela viu uma menina diante de um celular e um avô sentado ao lado.

E, a partir daquela pequena cena, imaginou o restante da história.

Só que a história que ela imaginou não era a história que estava acontecendo.

Anna não estava distraída com o celular.

Nós estávamos fazendo alguma coisa juntos.

Aquela leitura também fazia parte do nosso tempo juntos.

Talvez isso aconteça conosco mais vezes do que percebemos.

Vemos uma pequena parte da vida de alguém.

Imaginamos o restante.

Interpretamos.

Concluímos.

E algumas vezes até aconselhamos.

Sem conhecer a história inteira.

Há uma diferença entre perceber o outro e achar que já sabemos o que está acontecendo com ele.

Podemos nos aproximar porque nos importamos.

Podemos perguntar.

Podemos ouvir.

Podemos conhecer.

Mas talvez seja bom deixar um pequeno espaço entre aquilo que os nossos olhos veem e aquilo que concluímos sobre a vida do outro.

Naquele domingo, porém, a Anna precisou de muito menos palavras para dizer tudo isso:

— Muito chato, vovô!

E depois:

— Não é melhor cada um cuidar da sua vida?


Referências

João 7:24

Provérbios 18:13

Tiago 1:19

 

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