O filtro invisível

Nem sempre vemos a realidade. Muitas vezes vemos através dos nossos filtros.

O Filtro Invisível

Recentemente, durante uma conversa com um amigo, compreendi algo que me chamou a atenção.

Temos posições políticas diferentes. Eu tendo para um lado mais conservador. Ele, para um lado mais à esquerda. Mas percebi que, sempre que algum assunto com aparência política surgia, suas respostas vinham carregadas de certa agressividade.

Perguntei o motivo.

A resposta foi reveladora.

“Eu sei que isso não tem nada a ver com você. Mas, quando você fala, eu acabo respondendo pensando nas pessoas que costumam defender essas ideias.”

Naquele momento percebi algo simples e profundo:

Muitas vezes não respondemos à pessoa que está diante de nós. Respondemos à imagem que criamos dela.

Pessoas não são categorias

O cérebro humano procura padrões, cria associações e organiza a realidade em categorias. Isso pode ser útil. Mas também pode nos impedir de enxergar o outro como ele realmente é.

Vemos uma característica e, rapidamente, concluímos o restante.

O problema é que pessoas não cabem perfeitamente dentro de rótulos.

Isso acontece na política, na religião, nos relacionamentos, no trabalho e até na forma como enxergamos a nós mesmos.

E as inteligências artificiais?

Hoje, muitas pessoas recorrem às inteligências artificiais em busca de respostas. Mas é importante perceber que elas também trabalham a partir de conteúdos produzidos por seres humanos.

E os conteúdos humanos carregam tradições, padrões, interpretações, disputas, medos, exageros e repetições.

Além disso, uma inteligência artificial procura compreender quem está perguntando. Isso pode ajudar muito, mas também pode reforçar tendências, preferências e caminhos mentais já existentes.

Por isso, nem os seres humanos nem as inteligências artificiais eliminam a necessidade do discernimento.

O problema nem sempre é a informação

Talvez a pergunta mais importante não seja apenas:

“Quem está me informando?”

Mas também:

“Como estou processando aquilo que recebo?”

Porque, muitas vezes, o problema não está somente na informação. Está no filtro através do qual interpretamos a informação.

Quando as escamas caem

A vida de Paulo oferece um exemplo muito claro disso.

Antes de conhecer Cristo, Saulo era instruído, religioso e profundamente dedicado ao que acreditava. Não lhe faltavam informações. O que lhe faltava era enxergar.

“Imediatamente, algo como escamas caiu dos olhos de Saulo, e ele passou a ver novamente.”
Atos 9:18

As escamas não apontam apenas para uma cura física. Elas também nos ajudam a perceber algo espiritual e humano.

Muitas vezes a realidade está diante dos nossos olhos, mas nossos filtros nos impedem de percebê-la.

Quando as escamas caem, nem sempre vemos algo novo.

Às vezes, apenas passamos a ver aquilo que já estava ali.

Muitas vezes a verdade não está escondida.

O que está escondido é o filtro através do qual estamos olhando.

Quando os filtros apagam o outro

Existe ainda uma camada mais profunda nessa reflexão.

Os evangelhos registram que Jesus foi entregue por inveja.

“Porque sabia que o haviam entregado por inveja.”
Mateus 27:18

A inveja não é apenas desejar o que o outro possui.

Muitas vezes, a inveja é não suportar que o outro seja quem é.

Ela altera a forma de enxergar. A pessoa deixa de ver o bem e passa a enxergar ameaça. Deixa de reconhecer a vida e começa a procurar motivos para rejeitar.

Nesse sentido, a inveja é uma forma de cegueira.

Ela não impede os olhos de verem. Impede o coração de reconhecer.

Os líderes religiosos olharam para Jesus, ouviram suas palavras, viram seus sinais, mas não conseguiram reconhecê-lo. Seus filtros se tornaram mais fortes que a realidade.

Talvez isso também aconteça conosco mais vezes do que imaginamos.

Nem sempre matamos pessoas com as mãos.

Às vezes as apagamos com nossos filtros.

Quando reduzimos alguém a um rótulo, quando respondemos a uma imagem mental e não à pessoa real, quando interpretamos tudo a partir de uma categoria pré-definida, deixamos de enxergar quem realmente está diante de nós.

A inveja não apenas distorce o olhar.

Ela pode nos fazer ver contra aquilo que Deus está tentando nos mostrar.

Quem tem ouvidos para ouvir

A Bíblia fala sobre a renovação da mente. Normalmente pensamos nisso como receber novas informações. Mas talvez exista algo ainda mais profundo.

Talvez a renovação da mente seja também a transformação dos próprios filtros através dos quais enxergamos o mundo.

Não basta ouvir mais. É preciso ouvir de outro modo.

Não basta olhar mais. É preciso permitir que as escamas caiam.

Talvez por isso Jesus tantas vezes dissesse:

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”

O problema nem sempre está na mensagem. Às vezes, está na forma como a ouvimos.

Mas aqui surge uma pergunta importante:

Se apagamos o Espírito, como ouviremos?

Paulo escreveu:

“Não apaguem o Espírito.”
1 Tessalonicenses

Talvez os filtros não apenas atrapalhem a nossa percepção natural. Talvez eles também atrapalhem a ação do Espírito em nós.

Quando a inveja fala mais alto, quando o orgulho fala mais alto, quando a tradição fala mais alto, quando a ideologia fala mais alto ou quando as nossas certezas falam mais alto, o Espírito pode continuar falando, mas nós já não conseguimos ouvir.

Porque quem ouve não é apenas o ouvido natural.

Existe uma escuta mais profunda.

E talvez seja justamente essa escuta que Paulo nos chama a não apagar.

Se apagamos o Espírito, como ouviremos?

E se não ouvimos, continuaremos enxergando apenas através dos nossos filtros.

As escamas permanecem.

A verdade continua diante dos nossos olhos.

Mas já não conseguimos vê-la.

1 Comment

  1. Rosana Ferreira Cavalcanti disse:

    O filtro que usamos é do mundo.
    O filtro do Espírito Santo é único, porém nem todos aceitam e a sua arrogância prevalece. Peço ao Espírito Santo para que o seu filtro sobreponha ao meu humano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *