A queda começou quando o olhar mudou.
A primeira coisa que a Bíblia revela sobre Deus não é um mandamento. É um olhar.
Existe uma curiosidade que me intrigou durante algum tempo.
Qual foi o primeiro “não” de Deus na Bíblia?
Enquanto procurava essa resposta, acabei fazendo outra pergunta, muito mais importante:
O que Deus viu antes de dizer o primeiro “não”?
A resposta surpreende.
Depois de criar a luz, a Bíblia diz:
“Deus viu que a luz era boa.”
Depois da terra.
Depois dos mares.
Depois da vegetação.
Depois dos astros.
Depois dos animais.
O mesmo refrão continua ecoando:
“E Deus viu que era bom.”
Então Deus cria o ser humano.
E conclui:
“Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom.”
Gênesis 1:31
Esse é o primeiro olhar registrado na Bíblia.
O olhar de Deus.
E ele enxerga bondade.
Antes do primeiro “não”, Deus já havia repetido muitas vezes:
“É bom.”
Depois disso, Deus planta um jardim.
Coloca o homem nele.
E diz:
“Você pode comer livremente de qualquer árvore do jardim.”
Gênesis 2:16
Que bela maneira de começar.
Primeiro a liberdade.
Primeiro a abundância.
Primeiro o “sim”.
Somente depois aparece um único limite.
“Mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal.”
Gênesis 2:17
Um jardim inteiro.
Incontáveis árvores.
Um único “não”.
Mas, no capítulo seguinte, acontece algo muito mais profundo do que uma simples desobediência.
A Bíblia diz:
“Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e desejável…”
Gênesis 3:6
O jardim continuava ali.
As outras árvores continuavam ali.
A abundância permanecia exatamente a mesma.
O que mudou foi o olhar.
Talvez a queda não tenha começado quando o fruto foi colhido.
Talvez tenha começado quando o olhar deixou de contemplar a abundância para fixar-se na única coisa que não havia sido dada.
Desde então, parece que carregamos essa mesma tendência.
Esquecemos o jardim.
Fixamos os olhos na única árvore.
Séculos depois, Deus envia Natã para falar com Davi.
Antes de mencionar seu pecado, lembra-lhe tudo o que já havia recebido:
“Eu o ungi rei… Eu o livrei… Eu lhe dei… E, se tudo isso fosse pouco, eu lhe teria dado ainda mais.”
2 Samuel 12:7-8
Primeiro a abundância.
Depois o confronto.
O padrão permanece o mesmo.
O filho mais velho da parábola também esqueceu.
Enquanto reclamava da festa, o pai lhe respondeu:
“Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu.”
Lucas 15:31
Tudo.
Já era dele.
Mas seu olhar estava preso ao novilho.
Cair em tentação é esquecer a abundância e fixar os olhos na escassez.
Talvez o desejo desordenado sempre nasça assim.
Quando deixamos de enxergar tudo o que recebemos e passamos a desejar apenas aquilo que nos falta.
Por isso Paulo escreve:
“A bondade de Deus o conduz ao arrependimento.”
Romanos 2:4
Arrependimento talvez seja, antes de tudo, uma mudança de olhar.
Voltar a enxergar a bondade que sempre esteve presente.
Talvez por isso Jesus diga a Nicodemos:
“Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo.”
João 3:3
Primeiro… Ver.
Depois… Entrar.
E, quando perguntaram a Jesus:
“Quem é esse Filho do Homem?”
João 12:34
Ele respondeu de uma forma surpreendente.
Não começou explicando.
Disse apenas:
“Andem enquanto vocês têm a luz… Creiam na luz, para que se tornem filhos da luz.”
João 12:35-36
A luz existe para que possamos ver.
Talvez seja exatamente isso que Deus esteja restaurando em nós.
Não apenas o comportamento.
Mas o olhar.
Nascer do Espírito talvez seja voltar a enxergar como Deus enxerga.
Afinal, a primeira coisa que a Bíblia nos revela sobre Deus não é um mandamento.
É um olhar.
E esse olhar diz, repetidas vezes:
“É bom.”
E, ao contemplar o ser humano, acrescenta:
“Muito bom.”
O que tem ocupado o nosso olhar?
3 Comments
Agradeço a Deus e ao autor do texto acima e principalmente ao Espírito Santo que o conduziu a escrever exatamente o que Deus quer de nós.
Olhar para tudo primeiro com os olhos espirituais, e só assim vejo tudo que já recebi do Pai
Que o meu olhar se volte para a bondade de Deus!!!
O pecado começa quando deixamos de enxergar a abundância de Deus e passamos a focar apenas naquilo que nos falta. O novo nascimento restaura nosso olhar, para que possamos novamente contemplar a bondade, a graça e tudo o que já recebemos do Pai.