Quando alguém começa a existir

Quando alguém começa a existir

Dois meninos caminhando na rua no final da tarde

Antes de compreender, a pessoa precisa existir.

No domingo, aconteceram coisas pequenas.

Tão pequenas que, facilmente, passariam despercebidas.
Mas não passaram.


Um menino de doze anos.
Seu irmão mais novo, de nove.

Eles são irmãos.
Perderam a mãe há cerca de cinco anos.


Os dois têm muita dificuldade de comunicação.

O mais novo quase não fala. Ele é muito agitado.
Quando tenta falar, atropela as palavras.


No domingo, fiz algo muito simples.

Disse para eles falarem bem devagar. Bem devagar.

E contei algo para eles:

Eu também sou acelerado. Ainda sou.
Quando eu falo, eu atropelo as palavras.
E, para não atropelar, falo como se estivesse em câmera lenta.


Eles começaram a praticar comigo.

Sem pressão. Sem correção.
Só repetindo… bonitinhos.

E o mais novo começou a falar comigo.


Eu sempre levo esfiha e refrigerante no final das reuniões. Faço isso há muitos anos.

Mas ele nunca comeu esfiha.

Na semana anterior, perguntei o porquê.
Ele disse:

— Não gosto.

Perguntei:

— Prefere cachorro-quente?

Ele disse que sim.


No domingo, antes de começar a reunião, eu lembrei dele.

Falei:

— Hoje vou pedir cachorro-quente, porque você gosta.

E assim fiz.

Ele comeu.
Com alegria.


No final da reunião, aconteceu algo ainda mais simples.

Uma menina de cerca de sete anos tinha ido embora antes de receber um doce de banana que eu também levo.

Perguntei se poderiam levar para ela.
Disseram que ela morava do outro lado. Perto, mas do outro lado.

Nesse momento, o mais novo falou:

— Deixa que eu levo.


Pegou o doce.
Foi.
Entregou.
Voltou.

Todo contente.


Na hora de pagar a conta pelo celular, aconteceu algo curioso.

Recebi uma mensagem dizendo que a dona da lanchonete tinha feito uma cortesia e não iria me cobrar o refrigerante.

Eu não sei quem ela é.
Nem o motivo.

Não costumo pedir desconto.

Mas esse pequeno gesto me chamou a atenção.


Não teve ensino.
Não teve explicação.
Não teve discurso.

Mas algo aconteceu.


Primeiro, ele conseguiu falar.
Depois, ele participou.
Depois, ele se moveu.


Talvez a gente esteja tentando começar pelo lugar errado.

A gente quer que as pessoas entendam.

Mas, muitas vezes, elas ainda nem conseguiram existir.


Antes de compreender, a pessoa precisa ter espaço.

Espaço para tentar.
Para errar.
Para falar do seu jeito.
Para ser lembrada.
Para ser considerada.


Quando alguém percebe:

— Eu fui ouvido
— Eu fui lembrado
— O que eu disse importa

alguma coisa muda por dentro.


E quando isso muda…

a pessoa começa a se mover.

Não porque entendeu.
Mas porque agora ela pode.


Talvez seja isso.

Não é falta de inteligência.
Não é resistência.
Não é desinteresse.

Às vezes…

é só falta de espaço para existir.


E, quando alguém começa a existir…

começa, naturalmente, a alcançar outros.

Às vezes, atravessando a rua com um doce na mão.

Às vezes, sem saber por quê…
alguém faz uma pequena gentileza no caminho.

4 Comments

  1. Vitor Garcia disse:

    Me emocionei pastor! Nunca esqueço de quando você acreditou em mim. Eu não sabia se iria conseguir conquistar um trabalho bem pago, reconhecido porque havia estudo numa faculdade simples, a distância. Você me disse: seja ousado! Até hoje isso me move, obrigado por me mostrar que eu existo, me ouvir, me notar. Me dar ouvidos, me falar coisas importantes como contando um segredo misterioso de Deus que poucos sabem! Obrigado por mostrar com as ações mais do que explicar seu conhecimento.

  2. JEFFERSON DOMINGUES disse:

    Emocionante ,situações simples que revelan como Deus está nos Detalhes da Vida

  3. Ana Paula disse:

    Boa tarde pastor, tocante esse relato, Deus age em cada movimento 🙏🏻

  4. Vilma Humber Ferreira Humber disse:

    Muito lindo, amei

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