Libido, amor, paixão, vínculo e envelhecimento.
Falamos pouco sobre isso.
E, quando falamos, quase sempre falamos mal.
Ou reduzimos tudo ao corpo.
Ou transformamos tudo em moral.
Ou simplificamos demais aquilo que é profundamente humano.
Mas desejo é uma das forças mais importantes da vida humana.
Ele move aproximações, vínculos, escolhas, rupturas, alegrias e dores.
Compreender o desejo talvez seja compreender um pouco mais de nós mesmos.
Costumamos misturar essas três coisas.
E, quando se confundem, surgem muitos enganos.
A libido é a energia do desejo.
É impulso.
É força.
É movimento.
A libido diz:
eu quero.
Mas querer não é amar.
Desejar alguém não é o mesmo que amar alguém.
A paixão é a intensificação do desejo.
É quando a libido se encontra com a emoção, com a imaginação e com a idealização.
A paixão diz:
eu preciso de você.
Ela quer fusão.
Quer presença constante.
Quer exclusividade.
Mas a paixão frequentemente ama uma imagem antes de amar uma pessoa.
O amor é diferente.
O amor não é principalmente impulso.
Nem intensidade.
É direção.
O amor diz:
eu quero o seu bem.
A libido quer possuir.
A paixão quer fundir.
O amor quer entregar.
O desejo humano não nasce apenas no corpo.
O corpo participa.
Mas o desejo nasce também da alma.
Muitas vezes desejamos aquilo que parece preencher alguma falta em nós.
Nem sempre desejamos uma pessoa.
Às vezes desejamos o que sentimos ao lado dela:
O desejo também nasce da memória.
Das experiências que associamos ao prazer ou à proteção.
Nasce da imaginação.
Porque o ser humano não deseja apenas o real.
Deseja o imaginado.
E nasce do reconhecimento.
Ser visto desperta desejo.
Ser desejado desperta desejo.
Porque o desejo humano é profundamente relacional.
Porque aquilo que nos escapa mantém a mente em movimento.
A ausência alimenta a imaginação.
A imaginação alimenta o desejo.
O “quase” muitas vezes é mais poderoso do que o “já”.
O incompleto mantém energia circulando.
Mas quando conquistamos, algo muda.
A realidade aparece.
E a realidade corrige a fantasia.
Muitas vezes não perdemos o desejo.
Perdemos a idealização.
E isso pode ser doloroso.
Ou pode ser amadurecimento.
O casamento não é sustentado pela libido.
Nem pela paixão.
Elas ajudam.
Mas não sustentam.
O que sustenta vínculo duradouro é algo mais profundo.
A libido aproxima.
A paixão conecta.
O vínculo sustenta.
E o amor dá forma a tudo.
O casamento começa onde o encantamento termina.
No início, ama-se muito daquilo que se imagina.
Depois, encontra-se o real.
O outro real.
E nós mesmos reais.
É aí que o vínculo amadurece.
Ou se rompe.
Nem sempre por falta de amor.
Muitas vezes por falta de cultivo.
A ausência de conflito não significa presença de vínculo.
Muitos casamentos funcionam.
Mas já não se encontram.
Pagam contas.
Criam filhos.
Organizam a vida.
Mas perderam presença.
Perderam escuta.
Perderam verdade.
E, às vezes, o corpo denuncia antes da fala.
O enfraquecimento da intimidade física nem sempre é causa.
Muitas vezes é sintoma.
Esse talvez seja um dos pontos mais importantes.
A libido não desaparece com o tempo.
Ela muda.
Na juventude, costuma ser fogo.
Impulsiva.
Urgente.
Intensa.
Na maturidade, pode se tornar chama.
Menos explosiva.
Mais consciente.
Mais integrada.
E na velhice, muitas vezes se torna brasa.
Menos visível.
Mas ainda viva.
Às vezes mais profunda do que antes.
Para muitos homens, a libido esteve ligada à ideia de potência.
Por isso, envelhecer pode confrontar a identidade.
Não apenas o corpo.
Mas a imagem de si.
Já para muitas mulheres, a identidade esteve ligada à desejabilidade.
Ao ser vista.
Ao ser percebida.
Por isso o envelhecimento também pode tocar profundamente o senso de valor.
Mas tanto homens quanto mulheres podem descobrir algo maior:
uma identidade menos dependente da potência ou da aparência.
E mais fundamentada na presença, na verdade e na maturidade do vínculo.
Talvez amadurecer seja isso.
Perceber que o desejo muda.
O corpo muda.
Os vínculos mudam.
Mas algo permanece.
A necessidade humana de verdade.
De presença.
De amor.
Na juventude, o desejo pergunta:
o que me atrai?
Na maturidade:
o que me sustenta?
E, mais adiante:
o que realmente permanece?
Talvez essa seja uma das passagens mais profundas da vida humana:
sair do desejo que quer consumir
e amadurecer para o desejo que sabe permanecer.
Bilhete da Sorte
O que estamos fazendo aqui?
2 Comments
Excelente, mano! Acho que prá compreender a amplitude e profundidade da verdade nesse artigo faz-se necessária a experiência vivida. Em outras palavras, os mais avançados na idade compreenderão melhor.
Boa Tarde Airton, O casamento se sustenta no vínculo, não só na paixão.
O amor precisa ser cultivado,
Sem cuidado, a conexão se perde .