Tudo começou com uma pergunta muito simples.
Estávamos lendo a carta de Paulo aos Colossenses, sem pressa, quando surgiu a pergunta:
Quem é esse Cristo de quem Paulo está falando?
A pergunta parece fácil.
Mas talvez não seja.
Estamos tão acostumados a ler a Bíblia dividida em capítulos, versículos, títulos e subtítulos que muitas vezes deixamos de perceber uma coisa muito simples:
Paulo não escreveu versículos.
Paulo escreveu cartas.
E, quando retiramos as divisões e simplesmente lemos a carta, algumas palavras começam a adquirir uma dimensão diferente.
Em Colossenses, Paulo fala de Deus, o Pai.
Depois fala de seu Filho amado.
E diz que esse Filho é a imagem do Deus invisível.
Que nele foram criadas todas as coisas.
Que todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele.
Que ele é antes de todas as coisas.
Que nele tudo subsiste.
Que ele é a cabeça do corpo.
Que foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude.
E que, por meio dele, Deus reconciliasse consigo todas as coisas.
Então Paulo começa a falar de um mistério.
Um mistério que esteve oculto durante épocas e gerações.
Mas que agora foi revelado.
E finalmente diz:
Cristo em vocês, a esperança da glória.
Talvez seja melhor não passar rapidamente por essa frase.
Cristo em vocês.
Quando começamos a percorrer outras cartas de Paulo, algo surpreendente aconteceu.
Em Gálatas:
Cristo vive em mim.
E:
Cristo seja formado em vocês.
Em Romanos:
Cristo está em vocês.
Em outra carta aos coríntios:
Jesus Cristo está em vocês.
E Paulo fala repetidamente do Espírito de Deus habitando em nós.
Então percebemos que “Cristo em vocês” não é uma expressão ocasional de Colossenses.
Ela pertence a um pensamento que atravessa as cartas.
Outra coisa começou a aparecer.
Paulo não fala apenas:
Cristo em vocês.
Ele fala repetidamente:
Vocês em Cristo.
Em Cristo.
Com Cristo.
Cristo em vocês.
Vocês nele.
Até que Colossenses traz uma afirmação extraordinária:
Pois em Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e, por estarem nele, vocês receberam a plenitude.
Há dois detalhes que facilmente passam despercebidos.
Paulo não escreveu:
“Em Cristo habitou toda a plenitude.”
Ele escreveu:
Habita.
E não escreveu:
“Vocês receberão a plenitude.”
Mas:
Vocês receberam a plenitude.
Toda a plenitude:
nele.
E vocês:
nele.
Em Romanos, Paulo pede que apresentemos nossos corpos a Deus e diz:
Sejam transformados pela renovação da mente.
A palavra usada por Paulo pertence à família da palavra que conhecemos como metamorfose.
Isso muda bastante a maneira de olhar para a passagem.
Metamorfose não é simplesmente uma lagarta aprendendo a comportar-se como uma borboleta.
É transformação.
A lagarta não observa a borboleta e se esforça para imitá-la.
Ela também não fabrica suas próprias asas.
Há uma transformação.
E em outra carta Paulo utiliza novamente essa mesma palavra ao dizer que:
somos transformados segundo a mesma imagem, de glória em glória.
E relaciona essa transformação ao:
Senhor, o Espírito.
Então Gálatas acrescenta:
Cristo formado em vocês.
Filipenses:
Deus é quem efetua em vocês tanto o querer quanto o realizar.
Tessalonicenses:
Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente.
E imediatamente:
Aquele que os chama é fiel, e fará isso.
Pouco a pouco, uma diferença começou a aparecer.
Talvez a vida descrita por Paulo não seja fundamentalmente um esforço para imitar exteriormente Cristo.
Talvez seja algo muito mais profundo:
Cristo sendo formado em nós.
Isso também muda a leitura de outra expressão conhecida de Paulo:
fruto do Espírito.
Fruto não é fabricado pelo galho.
O galho permanece ligado à fonte da vida — e o fruto aparece.
Talvez por isso Paulo não diga:
“Produzam o Espírito.”
Ele diz algo muito mais simples:
Não apaguem o Espírito.
E essa pequena frase fica ainda mais bonita quando lemos o que vem imediatamente antes, sem a separação dos versículos:
Alegrem-se sempre.
Orem continuamente.
Deem graças em todas as circunstâncias.
Esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus.
Não apaguem o Espírito.
Não:
“acendam”.
Não:
“produzam”.
Mas:
não apaguem.
Nesse ponto, uma antiga frase do Salmo ganha uma beleza especial:
Deleite-se no Senhor.
E Paulo escreve:
Alegrem-se sempre no Senhor.
E, em outra carta:
O Reino de Deus é justiça, paz e alegria no Espírito Santo.
Talvez seja importante distinguir essa alegria de simples felicidade.
Felicidade costuma acompanhar circunstâncias favoráveis.
Mas Paulo conheceu sofrimento, prisão, rejeição, fraqueza e lágrimas — e ainda assim falou de alegria.
Não simplesmente alegria nas circunstâncias.
Alegria no Senhor.
A circunstância pode mudar.
A fonte da alegria permanece.
Por isso também:
Deem graças em todas as circunstâncias.
Não necessariamente pelas circunstâncias.
Mas:
em todas elas.
Depois de percorrer as cartas, essa talvez tenha sido uma das coisas que mais chamaram nossa atenção.
Paulo escreve:
Deus começou a boa obra em vocês.
Deus completará essa obra.
Deus opera em vocês o querer e o realizar.
O Espírito habita em vocês.
O fruto é do Espírito.
Cristo é formado em vocês.
Somos transformados.
Deus os santifique inteiramente.
E:
Ele fará isso.
Há participação humana.
Paulo fala de apresentar o corpo, permanecer, confiar, examinar, reter o que é bom e caminhar segundo o Espírito.
Mas a fonte da transformação permanece:
Deus.
Talvez por isso uma síntese tão simples seja possível:
Deleite-se no Senhor.
Confie nele.
Permaneça.
Não apague o Espírito.
Ele agirá.
Depois de percorrer as cartas, a pergunta inicial ficou ainda maior.
Paulo fala de:
Jesus Cristo.
Cristo Jesus.
Jesus, o Filho de Deus.
Jesus Cristo, o Senhor.
Mas também diz:
Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.
Falando da história de Israel:
A rocha era Cristo.
E também:
Cristo vive em mim.
Cristo em vocês.
Cristo formado em vocês.
Vocês são o corpo de Cristo.
E, falando de um corpo com muitos membros:
Assim também é Cristo.
Até chegar à extraordinária afirmação:
Cristo é tudo e está em todos.
Talvez, portanto, responder simplesmente:
“Cristo é Jesus”
não esteja errado.
Mas talvez seja uma resposta pequena demais para tudo aquilo que Paulo está dizendo.
Porque o mesmo Paulo que anuncia Jesus Cristo crucificado anuncia também:
Cristo em vocês.
E chama isso de:
mistério.
Um mistério que esteve oculto durante épocas e gerações.
Mas:
agora revelado.
Talvez seja melhor permanecer algum tempo diante dele.
Sem tentar encaixá-lo imediatamente numa doutrina.
Sem tentar resolvê-lo depressa.
Sem transformar novamente as cartas em uma coleção de versículos.
Apenas ouvindo Paulo:
Cristo em vocês, a esperança da glória.
E talvez deixando uma pergunta conosco:
Quem é esse Cristo de quem Paulo está falando?
Textos que acompanharam esta reflexão
Colossenses 1–3
Gálatas 1–5
Romanos 5–12
1 Coríntios 1–15
2 Coríntios 3–5 e 13
Filipenses 1–4
1 Tessalonicenses 1–5
2 Tessalonicenses 1–3
Salmo 37
Nesta reflexão, as referências foram deixadas para o final de propósito.
A proposta é permitir que as frases sejam primeiro ouvidas dentro do movimento das cartas,
antes de serem novamente localizadas em capítulos e versículos.
Nota sobre a leitura
Este texto nasceu da leitura contínua das cartas de Paulo, procurando preservar as palavras que ele utiliza — Cristo, Jesus, Filho, Senhor e Espírito — sem substituí-las antecipadamente umas pelas outras. As referências foram reunidas ao final para que a leitura possa conservar, tanto quanto possível, o movimento original das cartas.
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Precisamos Conhecer o Cristo de Paulo