Roma Eterna
Eu ouvi Roma Eterna apenas uma vez na vida, numa celebração solene — 50 anos de episcopado, com diversas autoridades eclesiásticas presentes, tradições, vestes e ritos.
E aquela melodia ficou gravada em mim.
A maioria das pessoas nunca ouviu essa música.
Por isso, vale apresentar o trecho principal de sua versão em português, frequentemente cantada em momentos de grande solenidade:
Ó Roma eterna, dos mártires, dos santos,
Ó Roma eterna, acolhe nossos cânticos.
Glória, louvor, ergue-se em tons vibrantes,
Ao vosso nome, à vossa majestade.Roma triunfa, eterna e soberana,
Roma que inspira e guarda a fé cristã.
Ergue-se aos céus nossa canção solene,
Roma eterna, Roma imortal!
Não importa a tradução exata.
O espírito é o mesmo: a exaltação da grandeza e da eternidade humana.
E foi isso que acendeu algo dentro de mim.
Ao longo da vida, compreendi que aquilo que ouvi naquela celebração não era um fenômeno exclusivo da Igreja Católica.
Muito menos da cidade de Roma.
É um movimento humano.
Todas as instituições, cedo ou tarde, são seduzidas pelo mesmo impulso:
preservar o próprio nome,
proteger a própria estrutura,
perpetuar sua influência,
afirmar sua autoridade,
defender sua continuidade,
parecer eterna.
Isso acontece em:
igrejas católicas,
igrejas evangélicas,
movimentos reformados,
ministérios independentes,
denominações históricas,
megaigrejas modernas,
instituições religiosas ou políticas,
e até empresas.
O impulso é sempre o mesmo:
o homem quer permanecer.
Não apenas viver — permanecer.
Quando Roma Eterna é cantada, o que ecoa não é apenas um hino — é um arquétipo.
Roma se torna símbolo daquilo que o ser humano sempre tenta construir:
Mas por trás desse impulso existe um medo silencioso:
o medo de desaparecer.
Por isso a música diz: Roma eterna.
Por isso tantos sistemas religiosos dizem: nossa tradição é eterna.
Por isso tantas igrejas modernas dizem: nosso movimento é eterno.
E até empresas dizem: nossa marca é eterna.
Roma é apenas o espelho mais famoso.
Mas o reflexo é universal.
O problema não é Roma.
O problema é o coração humano.
Jesus nunca pediu para construirmos um império.
Pediu para carregarmos uma cruz.
Nunca nos chamou a erguer estruturas.
Chamou-nos a permitir que o Espírito erguesse pessoas.
Nunca nos deu uma liturgia eterna.
Deu-nos um caminho vivo.
Mas o homem faz o contrário:
substitui presença por cerimônia,
substitui Espírito por protocolo,
substitui vida por rito,
substitui Cristo por instituição,
substitui Reino por império.
E esse movimento não pertence a uma denominação específica —
pertence à natureza humana quando ela tenta preservar a si mesma.
Quando ouvi Roma Eterna, percebi algo espiritual:
A canção exalta a permanência de uma cidade,
mas o Evangelho exalta a permanência do Espírito.
A música proclama:
“Nossa glória permanece.”
Mas Cristo proclama:
“Minha glória é dada, não construída.”
A música afirma:
“Roma é eterna.”
O Evangelho responde:
“Só o que nasce do Espírito permanece.”
E isso não é uma crítica à Igreja Católica —
é um chamado a todas as instituições, inclusive às evangélicas, que tantas vezes construíram seus próprios impérios, seus próprios símbolos, seus próprios “Reinos eternos”.
A tentação é a mesma.
A fragilidade é a mesma.
A natureza humana é a mesma.
Naquele dia, enquanto todos cantavam com sinceridade e solenidade, algo dentro de mim se iluminou:
Roma Eterna não é uma cidade.
É um desejo humano.
E esse desejo me alcança.
Alcança você.
Alcança qualquer pessoa que já buscou reconhecimento, autoridade, segurança, influência, estabilidade ou “permanência”.
Roma Eterna está:
em quem precisa ser aplaudido,
em quem constrói ministérios em torno do próprio nome,
em quem protege mais a instituição do que as pessoas,
em quem confunde tradição com verdade,
em quem teme desaparecer.
Roma começa dentro de nós.
A Bíblia diz:
“O mundo passa, bem como os seus desejos;
mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.” (1 João 2:17)
Tudo o que é humano passa.
Tudo o que é institucional passa.
Tudo o que é visível passa.
Mas o que o Espírito gera —
isso permanece.
Roma cai.
Babilônia cai.
Jerusalém cai.
Denominações caem.
Sistemas caem.
Tradições caem.
Mas o Cristo vivo — Cristo em nós — esse não cai.
Esse é o Reino que não pode ser abalado.
A única eternidade que não depende da força humana, da estrutura humana nem da glória humana.
Aquela música, cantada com tanta solenidade, não foi para mim um ataque à fé —
foi um espelho.
Ela me lembrou que todo sistema humano, cedo ou tarde, tenta cantar que é eterno.
Mas o Evangelho me lembrou algo maior:
É por isso que Jesus disse:
“Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus.”
Porque tudo o que não nasce desse Reino é Roma.
E Roma, por mais imponente que seja, não é eterna.
Saiba mais:
O amor e seus opostos
O amor e seus opostos
Prata e Ouro
2 Comments
..Só o que nasce do Espírito permanece
.. Só o Reino invisível é eterno
..Tudo que é humano passa
MARAVILHOSA CONCLUSÃO!!!!
Porque tudo o que não nasce desse Reino é Roma.
E Roma, por mais imponente que seja, não é eterna.
Verdadeiro , amei .
Obrigada