Quando os sentidos se perdem… e o coração deixa de perceber

Quando os sentidos se perdem… e o coração deixa de perceber

coração rachado

Tem algo estranho acontecendo com a gente.

Nunca tivemos tanto acesso… e, ainda assim, parece que estamos cada vez mais distantes.

A gente ouve tudo… mas quase nada fica.
Vê muita coisa… mas não percebe quase nada.

E, no meio disso tudo, surge um cansaço difícil de explicar.
Não é físico. É mais profundo.
Como se algo dentro da gente estivesse… desligando.


Jesus descreveu exatamente isso.

Ao citar o profeta Isaías, Ele disse:

“Vocês ouvirão, mas não entenderão; verão, mas não perceberão.”

E explicou o motivo: o coração se tornou insensível.


O problema não está nos ouvidos, nem nos olhos.
Está no coração.

Os sentidos continuam funcionando… mas já não alcançam o que realmente importa.


Talvez por isso a Bíblia fale de coisas tão simples: ouvir, ver, entrar, permanecer.
Não como conceitos religiosos… mas como um caminho.

Ouvir — permitir que algo toque por dentro.
Ver — perceber o que antes passava despercebido.
Entrar — quando deixa de ser ideia e começa a influenciar a vida.
Permanecer — quando deixa de ser momento e se torna forma de viver.


Mas esse caminho nem sempre começa com clareza.

Às vezes, é como andar no escuro… tateando.

Sem controle. Sem domínio.
Mas com um impulso interior que faz continuar.

Isso desmonta uma ideia comum: a caminhada com Deus não começa com certeza.
Muitas vezes começa assim: sem ver… mas seguindo.


E é nesse ponto que algo começa a acontecer por dentro.

Não é apenas uma decisão humana. Não é apenas “prestar mais atenção”.

Existe uma atuação… silenciosa. Como um sopro.
Que não pode ser controlado, nem produzido — mas pode ser percebido.

Às vezes aparece como um incômodo.
Outras vezes, como um despertar.
Ou como aquela sensação de que… tem algo mais aqui.

Não é emoção. Não é sugestão.
É algo mais profundo.

É o Espírito.

Não no sentido religioso que muitos aprenderam a rejeitar,
mas como presença, direção, vida.

E talvez o mais importante:
não somos nós que iniciamos esse processo.
Somos alcançados por ele.

E quando respondemos… os sentidos começam a voltar.


Mas existe algo que sustenta esse processo: o temor.

Não como medo, mas como reverência.
Um reconhecimento silencioso de que estamos diante de algo maior… e, ainda assim, próximo.

Sem isso, tudo perde o peso certo.
O que é profundo se torna comum.
O que é vivo se torna automático.
E, sem perceber, o coração vai se tornando… insensível.


Se o Espírito é quem conduz… então não sou eu.

E, por muito tempo, eu não percebi isso.

Cresci aprendendo que precisava ser responsável:
prover, sustentar, dar conta das coisas com o meu próprio esforço.

E isso não está errado. Existe responsabilidade real na vida.

Mas, com o tempo, aquilo que antes pesava mais sobre o homem foi se distribuindo.

Muitas mulheres passaram a carregar o mesmo peso — e, em muitos casos, também aquilo que já era delas.

No fim, o peso não diminuiu.
Apenas mudou de lugar… e, para muitos, aumentou.

E, sem perceber… aquilo que é responsabilidade vai se transformando em peso.

Não só para mim.
De formas diferentes, isso tem alcançado a todos.

Como se, pouco a pouco, a vida tivesse que ser sustentada por nós mesmos.


E, aos poucos, algo foi acontecendo por dentro.

Não de uma vez… mas lentamente.

Cansaço. Sobrecarga. Distância.
E, em algum ponto, até um certo desencanto com a própria vida.

Porque, no fundo… a vida não foi feita para ser sustentada por mim.

O Espírito não é uma ajuda. Ele é o Senhor.

E enquanto eu tento assumir esse lugar… algo dentro de mim se fecha.

Mas quando, mesmo sem entender tudo… eu cedo… algo muda.

Eu continuo agindo.
Continuo trabalhando.
Continuo sendo responsável.

Mas já não sou eu tentando sustentar tudo.

E, sem perceber exatamente quando… o peso diminui,
o coração se abre,
e a vida volta a fluir.


E aquilo que antes parecia distante… começa a se revelar.

“A intimidade do Senhor é para aqueles que o temem…”

Não são segredos escondidos por capricho,
mas coisas profundas confiadas a quem aprendeu a ouvir com reverência.


Talvez seja isso que está faltando hoje.

Não mais informação.
Não mais explicação.

Mas um coração que volte a sentir.

Porque não é que Deus deixou de falar…
é que, muitas vezes, já não sabemos mais ouvir.


Mas o caminho continua aberto.

Simples. Silencioso. Real.

Começa assim:

ouvindo de novo.
olhando de novo.
seguindo… mesmo sem ver tudo.

E então…

sem perceber exatamente quando,
o coração amolece,
os olhos começam a ver,
e os ouvidos voltam a ouvir.

E aquilo que sempre esteve ali… finalmente começa a aparecer.


“De tudo o que se deve guardar,
guarda o teu coração…”

“…porque dele procedem as fontes da vida.”

Talvez o problema não seja falta de acesso.

É que nos tornamos desatentos a isso.

Ou, quem sabe…

já não sabemos mais disso.

1 Comment

  1. JEFFERSON DOMINGUES disse:

    Boa Tarde Airton,
    O problema está no coração: a transformação começa quando somos alcançados por Deus e guiados pelo Espírito, não apenas pelo esforço humano.

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