Talvez o poder transformador do evangelho não esteja em produzir pessoas impecáveis,
mas pessoas cada vez mais verdadeiras.
Ser amado o suficiente para poder ser verdadeiro.
Existe um tipo de religiosidade que nos ensina, ainda que de forma involuntária,
que precisamos aparentar ser aquilo que ainda não somos.
Aprendemos a esconder dúvidas, disfarçar fraquezas, sorrir quando estamos cansados
e dizer que está tudo bem, mesmo quando não está.
Pouco a pouco, vamos construindo uma versão idealizada de nós mesmos.
Uma espécie de personagem espiritual.
O problema é que Deus não se relaciona com personagens.
O evangelho parece nos conduzir por outro caminho.
“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser.”
1 João 3:2
Talvez a primeira palavra seja a mais importante:
Amados
Antes da cobrança, existe o amor.
Antes da expectativa, existe o acolhimento.
Antes do esforço, existe a graça.
Depois disso, João afirma:
Agora somos
Não como quem declara perfeição.
Mas como quem reconhece uma realidade presente.
E, logo em seguida, acrescenta com humildade:
Ainda não se manifestou
Não precisamos fingir que chegamos.
Não precisamos aparentar uma maturidade que ainda está sendo formada.
Podemos reconhecer, honestamente:
Este sou eu.
O apóstolo Paulo também reconheceu essa tensão:
“Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.”
Romanos 7:19
Há algo profundamente libertador nessa declaração.
Paulo não finge.
Não se esconde.
Não tenta parecer melhor do que realmente é.
E, ainda assim, ele conclui:
Graças a Deus
Porque a esperança já não repousa sobre a sua própria capacidade.
Repousa sobre a ação do Espírito.
“…sem mim vocês não podem fazer coisa alguma.”
João 15:5
Talvez seja esse o poder transformador do evangelho.
Não produzir pessoas impecáveis.
Mas produzir pessoas cada vez mais verdadeiras.
Pessoas que já não precisam esconder suas fraquezas.
Pessoas que podem reconhecer seus limites sem perder a esperança.
Pessoas que compreendem que, sem Deus, nada podem fazer.
E que, justamente por isso, aprendem a caminhar em dependência.
Existe uma enorme diferença entre viver tentando provar alguma coisa para Deus
e viver permitindo-se ser conduzido por Ele.
O primeiro caminho produz culpa.
O segundo produz humildade.
O primeiro exige aparência.
O segundo convida à verdade.
Talvez a transformação não comece quando conseguimos parecer fortes.
Talvez ela comece quando podemos, finalmente, ser verdadeiros diante de Deus.
Sem máscaras.
Sem personagem.
Sem a necessidade de aparentar ser aquilo que ainda não somos.
Porque o amor de Deus não espera que estejamos prontos para então nos acolher.
Ele nos alcança no caminho.
E, justamente por nos amar, nos conduz.
Ser amado o suficiente para poder ser verdadeiro.
E, talvez, somente a partir daí,
começar a ser transformado.
3 Comments
Em busca de aceitação, muitas vezes usamos máscaras, nos transformamos em outras pessoas buscando sermos amados. Deus nos recebe como somos e , se permitirmos, seremos transformados pela ação do Espírito Santo de Deus que habita em nós.
A dificuldade talvez esteja em se sentir amado, por mais que as evidências gritem isso
Boa Tarde Airton, Esse texto e Desafiador
: presisamos entender quem somos em cristo.