Ser como Deus

Um trono vazio, uma bacia e uma toalha, revelando o contraste ao ser como Deus

Ser como Deus

Talvez grande parte do sofrimento humano comece quando tentamos ocupar um lugar que nunca nos pertenceu.

Nos últimos dias, uma sequência de situações me levou a uma reflexão que trouxe muita paz ao meu coração.

Observei pessoas tentando corrigir problemas.

Tentando acelerar decisões.

Tentando controlar resultados.

Tentando aliviar sofrimentos.

Tentando mudar a percepção umas das outras.

E, em determinado momento, percebi algo desconfortável e libertador ao mesmo tempo.

Eu também estava fazendo exatamente a mesma coisa.

Eu queria resolver situações que não dependiam de mim.

Queria produzir paz onde havia ansiedade.

Queria produzir confiança onde havia medo.

Queria produzir entendimento onde havia divergência.

Foi então que uma antiga história voltou à minha mente.

Talvez a mais antiga de todas.

A primeira tentação: ser como Deus

A primeira tentação registrada na Bíblia não foi a busca por dinheiro.

Não foi a busca por prazer.

Não foi a busca por poder político.

Foi algo muito mais profundo.

“Vocês serão como Deus.”
Gênesis 3:5

Essa frase parece atravessar toda a história humana.

Porque ela continua ecoando dentro de nós até hoje.

Queremos controlar o futuro.

Queremos controlar pessoas.

Queremos controlar processos.

Queremos controlar resultados.

Queremos determinar o tempo das coisas.

Queremos definir o que deve acontecer.

Queremos corrigir aquilo que julgamos errado.

Queremos carregar responsabilidades que nunca nos foram entregues.

Em resumo:

queremos ser como Deus.

O homem quis ser como Deus.
Deus, em Cristo, mostrou como é um verdadeiro homem.

Uma tentação que continua viva

Talvez essa tentação nunca tenha deixado o jardim.

Ela apenas mudou de aparência.

Às vezes surge na forma de orgulho.

Às vezes na forma de poder.

Mas, muitas vezes, surge vestida de boas intenções.

Aparece como preocupação.

Como zelo.

Como responsabilidade.

Como amor.

Como desejo sincero de ajudar.

Queremos aliviar o sofrimento de alguém.

Queremos acelerar o amadurecimento de alguém.

Queremos produzir confiança em alguém.

Queremos convencer alguém.

Queremos resolver aquilo que somente Deus pode resolver.

E acabamos sofrendo porque assumimos uma função que nunca nos foi dada.

Foi exatamente isso que percebi.

Posso aconselhar.

Posso ouvir.

Posso amar.

Posso servir.

Mas não posso confiar por outra pessoa.

Não posso descansar por outra pessoa.

Não posso caminhar com Deus por outra pessoa.

Essa parte pertence a ela.

E pertence a Deus.

O grande contraste

É aqui que Jesus entra na história de maneira surpreendente.

Porque o ser humano quis ser como Deus.

Mas Deus, em Cristo, se fez homem.

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo… tornando-se semelhante aos homens; e reconhecido em figura humana…”
Filipenses 2:5-8

Que contraste extraordinário.

A serpente disse:

“Subam.”

Cristo desceu.

A serpente ofereceu um trono.

Cristo pegou uma toalha e lavou pés.

A serpente prometeu poder.

Cristo revelou serviço.

O homem quis ocupar o lugar de Deus.

Deus ocupou o lugar do homem.

O verdadeiro ser humano

Talvez Jesus não tenha vindo apenas para revelar quem Deus é.

Talvez ele também tenha vindo para revelar quem o ser humano foi criado para ser.

Ao observar sua vida, não encontramos alguém tentando controlar pessoas.

Não encontramos alguém impondo transformações.

Não encontramos alguém manipulando consciências.

Encontramos alguém servindo.

Amando.

Curando.

Ensinando.

Convidando.

Jesus não conduzia pessoas pela força.

Conduzia pelo amor.

O jovem rico foi embora.

Judas seguiu seu caminho.

Muitos discípulos o abandonaram.

Ainda assim, Jesus continuou servindo.

Porque ele não veio para controlar corações.

Veio para revelar o coração do Pai.

Cristo em nós

Talvez seja por isso que Paulo escreveu:

“Cristo em vocês, a esperança da glória.”
Colossenses 1:27

O chamado do evangelho não é que nos tornemos deuses.

O chamado é que Cristo seja formado em nós.

Que a bondade de Deus seja revelada através de nós.

Que o fruto do Espírito apareça em nossa vida.

Que aprendamos a servir.

Que aprendamos a amar.

Que aprendamos a confiar.

Não somos chamados para ocupar o trono.

Somos chamados para carregar a toalha.

Não somos chamados à omissão.

Somos chamados à cooperação humilde.

Fazemos o que nos cabe.

Mas deixamos com Deus aquilo que somente Deus pode fazer.

O descanso

Talvez o descanso de Deus comece exatamente aqui.

Quando finalmente percebemos que não somos Deus.

Não precisamos controlar o futuro.

Não precisamos mudar pessoas.

Não precisamos carregar a vida dos outros.

Não precisamos sustentar o mundo.

Podemos servir.

Podemos amar.

Podemos semear.

Podemos caminhar ao lado.

Mas é Deus quem convence.

É Deus quem transforma.

É Deus quem conduz.

Há uma paz profunda nessa descoberta.

Porque o grande equívoco do ser humano continua sendo o mesmo do Éden:

Querer ser como Deus.

A revelação

E a grande revelação de Jesus continua sendo a mesma:

Mostrar como é um verdadeiro ser humano vivendo em perfeita confiança no Pai.

Curiosamente, nossa linguagem revela algumas inversões.

Expressões como descanse em paz ou foi pego para Cristo costumam provocar desconforto.

Como se descansar fosse perder a vida.

Como se pertencer a Cristo fosse perder a liberdade.

Mas talvez aconteça exatamente o contrário.

A serpente prometeu liberdade quando ofereceu ao homem a possibilidade de ser como Deus.

Mas o resultado foi medo, vergonha, ansiedade e sofrimento.

Cristo oferece outro caminho.

Não o trono.
A toalha.

Não o controle.
A confiança.

Não a independência.
A comunhão com o Pai.

Talvez a verdadeira liberdade comece quando Cristo é formado em nós.

“Meus filhos, por quem de novo sofro as dores de parto, até que Cristo seja formado em vocês.”
Gálatas 4:19

Talvez seja nesse momento que deixamos de tentar ocupar o lugar de Deus.

Talvez seja nesse momento que começamos a descobrir quem realmente fomos criados para ser.

E talvez seja exatamente por isso que João escreveu:

“Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser…”
1 João 3:2

Há momentos em que uma obra não termina porque tudo foi explicado.

Ela termina porque aquilo que precisava ser visto finalmente se tornou claro.

E, quando isso acontece, já não há necessidade de acrescentar peso.

Há apenas gratidão.

Há descanso.

Há silêncio.

Há paz.

Cristo em vocês,
a esperança da glória.

Descanse em paz.

O SENHOR continua soberano.

3 Comments

  1. João Carlos de Carvalho disse:

    Não preciso ser o melhor em nada que eu faço, mas oferecer o melhor de mim aos que me cercam, não ser melhor é libertador pois possibilita tirar o peso da luta inglória pelo poder e sucesso, reconhecimento social e familiar e viver submisso a vontade de Deus.

  2. Nadir Humber disse:

    O Senhor continua soberano. Amém.

  3. Ilda Ferreira Humber Lahoud disse:

    Descanse em paz, a gente fala sobre alguém que morreu….tal pessoa descansou…talvez seja isso mesmo, descansou de ficar se esforçando e atendeu ao chamado de Cristo pra nascer de novo e viver uma nova vida..”vinde a mim todos os que estão cansados e Eu lhes darei descanso”…descansar no Senhor até que Cristo seja formado em nós 🙏🏻

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