Servo ou filho?

Servo ou Filho?

Existe uma diferença silenciosa que atravessa toda a vida espiritual.

Ela não aparece nos discursos, nem nas doutrinas bem organizadas.

Ela aparece no jeito como a gente vive.

A tradição tende a nos formar como servos.

O Espírito nos forma como filhos.

O servo obedece por medo.

O filho responde por confiança.

O servo tenta não errar.

O filho aprende a viver.

Talvez a grande pergunta não seja se estamos certos,

mas de onde estamos vivendo.

Na parábola dos talentos, um servo recebe uma quantia e faz algo que parece prudente: ele esconde, enterra e devolve intacto.

E a justificativa é simples: “tive medo”.

O medo é uma linguagem típica do servo.

Ele vive tentando não perder, tentando não ser culpado, tentando se proteger.

Por isso escolhe o lugar mais seguro: o pó da terra.

Enterrar no pó é o jeito humano de dizer:

“eu prefiro conservar do que viver”.

“eu não confio o suficiente para colocar isso em movimento”.

Mas a vida governada pelo Espírito não foi feita para ser conservada.

Ela foi feita para crescer.

Existe algo muito presente entre nós hoje: o que muitos chamam de espiral do silêncio.

A tradição não precisa proibir nem perseguir.

Basta nos convencer de que é melhor não falar, não ousar, não se expor, não sair do lugar.

E assim, pouco a pouco, os dons continuam existindo,

mas deixam de se manifestar.

Aqui vale dizer com clareza:

A tradição nos faz servos.

O Espírito nos faz filhos.

A Escritura não fala de teoria, mas de manifestação do Espírito.

Algo que aparece. Algo que se vê. Algo que produz fruto.

Dons enterrados não produzem fruto.

E fruto é o que honra o nome de Deus.

Jesus também disse que a vida sob o domínio do Espírito é como o fermento que uma mulher escondeu na massa.

Aqui, esconder não é medo. É método.

O fermento não é enterrado para não agir.

Ele é colocado dentro para transformar tudo por dentro.

A ação do Espírito começa silenciosa,

mas nunca termina silenciosa.

O esconder do servo paralisa.

O esconder do Espírito transforma.

Jesus falou ainda de um homem que encontrou uma pérola de grande valor e vendeu tudo o que tinha para comprá-la.

Ele não vendeu tudo porque virou radical.

Ele vendeu tudo porque enxergou.

E quando a vida passa a ser governada pelo Espírito, a gente descobre que o que precisa ser vendido nem sempre são coisas.

Às vezes são pesos.

E entre esses pesos existe um dos mais persistentes:

o pecado de não crer.

Não crer paralisa.

Não crer chama medo de prudência.

Não crer enterra dons e chama isso de maturidade.

Por isso Paulo disse algo simples e definitivo:

“Cri, por isso falei.”

Ele não disse: “entendi, por isso falei”.

Nem: “tive certeza, por isso falei”.

Ele disse: eu cri, então eu falei.

Fé viva não termina em silêncio bonito.

Ela termina em manifestação.

No fim, talvez a pergunta não seja sobre talentos, dons ou palavras.

Talvez seja sobre mim:

Eu estou vivendo como servo… ou como filho?

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