Você sabe quando faz o mal?
Você sabe quando faz o mal?
A maioria de nós responderia: “Claro que sei.”
Mas as Escrituras sugerem o contrário.
Elas revelam que, muitas vezes, o mal não acontece porque alguém “quer ser mau”.
Ele acontece porque alguém não percebe o que está fazendo.
E talvez esse seja o ponto mais difícil de aceitar:
o mal raramente se apresenta como mal.
Se o mal viesse com um aviso na testa, ninguém o escolheria.
Mas ele vem disfarçado.
Ele aparece como “prudência”.
Como “bom senso”.
Como “proteção”.
Como “necessidade”.
Como “não vale a pena mexer nisso”.
Ele vem assim:
“não é nada demais”
“é só dessa vez”
“é melhor deixar quieto”
“sempre foi assim”
“isso vai dar problema”
“vamos manter a paz”
E, quando percebemos… já fizemos.
Judas traiu com um beijo
Judas não aparece na Bíblia como alguém distante de Jesus.
Ele estava perto.
Caminhava junto.
Participava.
E no momento decisivo, ele não levanta uma espada.
Ele beija Jesus.
Um gesto de amizade.
Um sinal de proximidade.
Uma aparência de amor.
Só que era traição.
E então Jesus responde com uma frase que é impossível ignorar:
“Amigo, faça o que você veio fazer.”
(Mt 26:50)
Jesus chama Judas de amigo.
E isso não acontece porque Jesus não sabia.
João registra que Jesus sabia:
“um de vocês é um diabo.”
(Jo 6:70)
Ou seja: Jesus não está confuso.
Ele está lúcido.
E mesmo assim, Ele fala limpo.
Aqui as Escrituras são extremamente precisas.
Jesus diz:
“Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno.”
(Jo 15:14)
Então repare:
Jesus define amigo como quem obedece
e chama Judas de “amigo” no momento em que Judas desobedece
Isso revela algo que assusta:
é possível estar perto…
e não estar com Ele.
É possível ter linguagem de amizade…
e intenção de traição.
É possível beijar…
e ferir.
João registra outra frase ainda mais desconcertante:
“O que você está prestes a fazer, faça depressa.”
(Jo 13:27)
Jesus não está “ensinando Judas a pecar”.
Ele está trazendo à luz o que Judas já decidiu por dentro.
Como se dissesse:
“Pare de encenar.
Assuma.
Revele.
Faça.”
E Judas faz.
E João fecha com uma frase curta, fria e perfeita:
“Logo que recebeu o pão, Judas saiu. E era noite.”
(Jo 13:30)
Era noite.
Não apenas do lado de fora.
Muita gente olha para Judas e pensa:
“Eu jamais faria isso.”
Mas a Escritura não registra Judas para que a gente encontre um vilão distante.
Ela registra Judas para que a gente enxergue uma possibilidade humana.
Judas estava muito perto de Jesus.
Ouviu palavras vivas.
Viu o Reino em ação.
E mesmo assim, ele escolheu trair.
E o que Judas escolheu naquele instante não foi apenas “um erro”.
Ele escolheu uma segurança.
Ele escolheu a conveniência de um sistema.
A previsibilidade de uma tradição.
A paz falsa do conhecido.
Ele escolheu o caminho em que a religião já sabe como funciona:
autoridades, acordos, linguagem pronta, controle.
E isso é assustador, porque mostra que é possível estar perto da verdade…
e ainda assim preferir o que é confortável.
Porque o mal não começa no ato.
Ele começa dentro.
Ele começa quando o coração tenta se proteger.
Quando o medo governa.
Medo de perder.
Medo de ser rejeitado.
Medo de ficar sozinho.
Medo de pagar o preço da verdade.
Medo de sair do conhecido.
E então o ser humano faz o que sempre faz:
tenta se salvar sozinho.
E quando tenta se salvar sozinho… ele trai.
Trai a verdade.
Trai a consciência.
Trai o amor.
Às vezes com palavras bonitas.
Às vezes com silêncio.
Às vezes com um beijo.
No centro da cruz, Jesus diz:
“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo.”
(Lc 23:34)
Essa frase não diminui o mal.
Ela revela o diagnóstico:
quem faz o mal, muitas vezes não sabe o que está fazendo.
Sabe o gesto…
mas não enxerga o espírito.
Sabe o ato…
mas não percebe o abismo.
E é por isso que a mensagem central da cruz é tão alta:
Deus não veio para esmagar o culpado.
Deus veio para salvar o cego.
É a salvação do traidor
A beleza do Evangelho é quase impossível de suportar:
Jesus não perde o amor nem diante do traidor.
Ele chama Judas de “amigo” no momento crucial.
Ele não chama Judas de “amigo” porque Judas merecia.
Ele chama Judas de “amigo” porque Ele é quem Ele é.
E isso revela o que Deus veio fazer:
não condenar o mundo…
mas salvar.
Salvar inclusive essa parte em nós
que ainda prefere o confortável
ao verdadeiro.
Isso não é aprovação.
Isso é luz.
É como se Cristo dissesse:
“Eu sei.
E mesmo assim, eu não me torno trevas.
Eu permaneço luz.”
Deus não vence o mal se tornando mal.
Ele vence o mal permanecendo quem Ele é.
Você sabe quando faz o mal?
Porque talvez o mal mais perigoso…
não seja o mal escancarado.
Mas o mal que se disfarça de prudência.
De tradição.
De bom senso.
De “sempre foi assim”.
O beijo.
A luz não veio para humilhar.
Veio para salvar.
O Evangelho não é o anúncio de que existem pessoas más.
É o anúncio de que Deus entra na nossa noite…
e ainda chama de amigo.
E quando essa luz acende, algo novo acontece:
o coração para de se salvar sozinho.
E finalmente aprende a confiar.
Viver o novo
Tradição
3 Comments
A maior distância de Deus é acharmos q estamos perto quando vivemos tradição, não somos chamados para sermos “bons” e sim “justos”. (Mateus 16:25) “aquele q quiser salvar a sua vida, perdê-la-á”, se praticamos obras por acharmos q somos bons, não entregamos o controle da nossa vida a Jesus, estamos tentando nos salvar ou merecer a salvação. A expressão de Jesus ao chamar Judas de “amigo” também revela quem Ele é, pois Jesus não estáva com raiva ou surpreso, mas de triste reconhecimento de perder um amigo, (João 15:5)” já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer”.
Sinceramente não significa necessariamente verdade. O mal habita em nós de maneira muito real utlizando-se inclusive de metáforas, posso amar e ser mal para a pessoa que amo. Posso parecer bom ter atitudes que confundem o julgamento de outros pois o meu “eu” manipula até a mim.
Não sou necessariamente crente, mas coloquei o texto como a metáfora que ele propõe, daí gostei