Medo de Deus
Em última instância, temos medo somente de Deus.
A Psicanálise ensina: temos medo do desconhecido, e uma tendência de voltar para o conhecido por pior que seja.
Nós conhecemos o mundo, tenebroso, que vivemos e ele não nos assusta mais porque já estamos acostumados com o ambiente.
Sabemos que existe algo mais, além do que vemos. Sabemos também que isso nos afeta diariamente; é algo que não conhecemos e portanto temos medo.
E as tradições sociais e religiosas nos mostram um caminho conhecido que nos anestesia em meio ao sofrimento, e impedem a nossa libertação.
Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida!
São poucos os que a encontram. Mateus 7:14.
Tenho pensado muito sobre o medo.
Não o medo do escuro, da morte ou do futuro.
Mas um medo mais sutil, mais escondido…
um medo que quase ninguém assume, mas que define quase tudo em nós:
o medo do bem.
O medo de Deus.
Parece contraditório, mas é real.
Vivemos num mundo tenebroso e não temos medo dele.
Aceitamos a injustiça, a mentira, a corrupção, a competição desleal, o egoísmo, os vícios emocionais — e chamamos isso de normal.
Mas quando alguém fala de luz, de verdade, de rendição ao Espírito…
o ambiente fecha.
A resistência cresce.
O medo aparece.
E foi refletindo sobre isso que percebi algo que está na raiz dessa história toda:
nós temos medo do bem… porque fomos ensinados a ter medo de Deus.
Essa história começa no Éden.
Quando Adão come do fruto, a Bíblia diz algo curioso:
Então os olhos de ambos se abriram, e perceberam que estavam nus. (Gênesis 3:7)
Eles não ficaram cegos.
Pelo contrário — os olhos se abriram.
Mas passaram a enxergar com vergonha, com medo.
Perceberam a própria nudez, se cobriram com folhas, e — o mais importante —
se esconderam de Deus.
Ouvi os teus passos no jardim e tive medo… (Gênesis 3:10)
O medo nasceu… não do mal.
Mas da luz de Deus.
E desde então, essa é a tendência natural da humanidade:
fugir da luz, desconfiar do bem, se esconder da verdade.
Como se o problema fosse Deus — e não a distância que criamos d’Ele.
“Os homens amaram mais as trevas…”
Jesus confirma isso com clareza em João 3:
A luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más. (João 3:19)
Não se trata apenas de ignorância.
É escolha.
É instinto de fuga.
É medo da luz… porque a luz revela.
E quanto mais carregamos coisas não resolvidas dentro de nós, mais tememos a exposição.
Não queremos ser vistos.
Não queremos ser transformados.
Por isso preferimos o disfarce da religiosidade à entrega verdadeira.
E foi nesse ponto que outra ficha caiu para mim.
O diabo tem enganado os homens com a Palavra de Deus.
Foi assim no Éden:
Foi assim que Deus disse…?
Foi assim com Jesus no deserto:
Está escrito…
E é assim até hoje.
A tradição religiosa muitas vezes usa a Bíblia para gerar medo.
Cita trechos isolados.
Reforça a imagem de um Deus rígido, justiceiro, controlador.
E com isso, sem perceber, ensina o povo a ter medo de Deus como Adão teve — não com reverência, mas com pavor.
A fugir da luz.
A desconfiar do bem.
A ter medo de Deus.
E as pessoas se acomodaram e acostumaram até hoje, exatamente como fizeram com Moisés, no deserto:
Quando o povo se viu diante dos trovões e dos relâmpagos, e do som da trombeta e do monte fumegando, tremeram todos assustados. Ficaram à distância e disseram a Moisés: Fala você mesmo conosco, e ouviremos. Mas que Deus não fale conosco, para que não sejamos mortos. (Êxodo 20:18,19)
Jesus porém, no deserto, preferiu ouvir e dar ouvidos ao Espírito Santo:
Dito está… (Lucas 4:12)
E o diabo o deixou.
Nós porém continuamos, alimentados pelas tradições, a escolher alguém que fale de Deus para nós, apesar do ensinamento:
Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, (1 Timóteo 2:5)
Ele nos mostrou o caminho: o do ser humano comum, como ele se fez, guiado pelo Espírito Santo.
E ainda tem um detalhe simbólico e profundo:
Lúcifer — nome latino que significa “portador da luz” — foi associado ao diabo pela tradição religiosa.
Mas a Bíblia nunca chama o diabo de Lúcifer.
Essa ligação nasceu na Vulgata (tradução latina) e depois foi alimentada por escritores como Dante e Milton.
No hebraico de Isaías 14, o texto fala de um “astro brilhante”, em tom poético, sobre o rei da Babilônia.
Mesmo assim, a tradição colou a ideia:
“cuidado com a luz — ela pode ser enganosa.”
E esse foi talvez o maior golpe espiritual:
fazer o homem desconfiar da luz.
Ter medo do bem.
Ter medo de Deus.
A verdade é que esse medo não ficou no Éden.
Ele continua vivo hoje — em mim, em você, em todos nós.
Vivemos num mundo onde as pessoas dizem que querem verdade…
Mas, na prática, preferem não ser confrontadas.
Preferimos controlar a aparência do que lidar com o que está dentro.
Preferimos manter a rotina do que abrir espaço para algo novo.
Preferimos orações decoradas do que uma conversa sincera com Deus.
Porque, no fundo, a luz assusta.
Não porque ela é má.
Mas porque ela mostra o que está escondido.
E aí, ao invés de correr para Deus… a gente se esconde.
Com trabalho. Com religião. Com distrações.
Com justificativas muito bem construídas.
A luz não mudou desde o Éden.
Quem mudou foi o nosso olhar.
De um olhar simples e confiante… para um olhar desconfiado, culpado, defensivo.
Só que Deus não veio nos acusar.
Ele veio nos transformar.
A luz não é para nos envergonhar — é para nos curar.
A Bíblia diz que haverá um momento — que ninguém sabe quando — em que nós seremos transformados.
Num abrir e fechar de olhos… (1 Coríntios 15:52)
Esse “abrir de olhos” será diferente do primeiro.
Não revelará a vergonha, mas a vida.
Não será o começo do medo, mas o fim dele.
Porque naquele dia, finalmente veremos Deus como Ele é — e não mais como aprendemos a temer.
E veremos a nós mesmos como somos, sem precisar fugir, esconder ou disfarçar nada.
Até lá, vamos sendo transformados aos poucos.
Toda vez que escolhemos a luz, mesmo tremendo por dentro.
Toda vez que abrimos mão do controle, mesmo sem entender tudo.
Toda vez que paramos de fugir… e olhamos para Deus sem medo.
Essa é a libertação mais profunda:
deixar de ter medo de Deus.
E confiar, de verdade, que Ele é bom.
Saiba mais:
Quando a luz assusta mais que as trevas
Quando a luz assusta mais que as trevas
Chegou a hora de revirar a Bíblia como ela é